Por: Pr., Esc. Vanderlei M Barros uma crítica literária.
Há encontros que a arte proporciona que vão além da mera afinidade textual; são encontros de almas que enxergam o mundo através da forma, da cor e da palavra. É com singular alegria que trago a este espaço uma reflexão sobre a obra do meu confrade e querido Presidente da AILA (Academia Ibatibense de Letras e Artes), o mestre José Ribeiro Sobrinho.
José Ribeiro é a definição viva do artista eclético. Sua sensibilidade não se limita à pena: ele é escritor, poeta, contista e um talentoso escultor e pintor — artes com as quais me identifico profundamente e pelas quais compartilhamos um respeito mútuo e fraternal. Sua versatilidade criativa é tamanha que transita do lirismo poético à pesquisa histórica detalhada, tendo inclusive dedicado sua escrita a eternizar em livro a memória, as ruas e a alma da nossa querida terra Ibatiba. Uma generosidade historiográfica singular.
Neste poema que nos presenteia, intitulado Pelicano, Ribeiro busca inspiração na clássica e profunda metáfora cristã do pelicano — figura que fura o próprio peito para alimentar os filhotes com o próprio sangue na ausência de alimento —, tema tão caro à música sacra e à teologia.
Trata-se de uma poesia devocional de entrega absoluta. O autor contrapõe a pequenez humana à imensidão do amor de Cristo, utilizando uma métrica sincera e rimas que ecoam como uma oração cantada. É a busca pelo refúgio, pela purificação das mágoas e pelo alimento espiritual que só a entrega a Deus pode proporcionar.
Com a sensibilidade de quem também molda a matéria na escultura, José Ribeiro esculpe em versos um altar de fé e contemplação.
PELICANO
Uma poesia do escritor José Ribeiro.
É, tal qual o Pelicano,
Que se chagou e feriu,
e das chagas do meu amo,
alimenta o pobre vil.
Quero beijar-te as chagas
E de seu sangue, beber.
Limpa-me, todas as mágoas…
Tua paz, eu quero ter.
Meu Jesus é o Pelicano,
A quem me refiro.
E eu, o pobre desumano,
Que a este Deus eu profiro.
Jesus, meu doce alimento,
Quero, hoje, em ti, repousar,
Seja meu discernimento,
Para sempre, eu te amar.
A presença de lideranças como o nosso Presidente José Ribeiro no cenário cultural nos reforça uma certeza: a arte é o maior patrimônio de um povo. Quando a literatura, a pintura e a escultura caminham unidas, elas impulsionam a educação, valorizam o turismo e edificam o espírito da nossa cidade.
Honrar a Cadeira número 20 da AILA sob a gestão de um artista tão completo e dedicado é motivo de profundo orgulho. Dedico minha reverência não apenas aos acadêmicos que sustentam os pilares da nossa instituição, mas a todos os artistas e escritores da nossa região que, com coragem e talento, continuam alimentando a alma da nossa gente.
Aproveito este momento de reflexão para fazer um apelo respeitoso, porém firme, às autoridades e aos órgãos públicos do nosso município de Ibatiba. Nossa cultura é plural e merece ser abraçada em sua totalidade. Embora reconheçamos o devido valor da música e de outras manifestações populares, não podemos permitir que a literatura, os nossos escritores e a nossa amada Academia de Letras (AILA) continuem à margem do apoio público institucional. A literatura é a memória viva e o alicerce educacional de uma sociedade; valorizar os livros, os autores locais e dar o suporte necessário à nossa Casa de Letras não é um luxo, mas um dever com a identidade, a educação e o futuro do nosso povo.
Por fim, fica aqui uma reflexão fraterna, mas necessária, aos confrades e confreiras que conquistaram a honra da imortalidade acadêmica: a cadeira não é um troféu estático para ostentação de título, mas um compromisso vivo com a ação cultural. Onde estão vocês nos bastidores, nas lutas do dia a dia e nos projetos que movem a nossa terra? O verdadeiro agente de cultura não vive da glória do passado nem do glamour de um status; ele constrói o presente. A nossa Academia, os nossos leitores e o futuro de Ibatiba precisam da presença, do trabalho e da voz de cada um de vocês.











