Vivemos na era do bem de consumo com direito autoral. Hoje em dia, a pessoa compra uma bota de couro ecológico e faz questão da nota fiscal emitida em três vias, com QR Code e garantia estendida. Compra um carro zero e a primeira providência é correr ao DETRAN para estampar no documento, em letras garrafais e inquestionáveis: “propriedade de Fulano de Tal”. A moça adquire uma moto 125cc e não descansa enquanto o certificado de registro não trouxer o seu nome completo, sem rasuras. Para o liquidificador, exige-se nota; para o lote de terra, a escritura definitiva; para a biqueira do tênis, o termo de garantia. Tudo muito bem delimitado, carimbado e protegido por lei.
Mas no departamento do coração, a contabilidade anda meio confusa.
O sujeito mora sob o mesmo teto com a moça há sete anos, três meses e duas panelas de pressão. Dividem a conta de luz, o sofá, o cachorrinho de estimação e a responsabilidade de quem levanta de madrugada para fechar a janela na chuva. Aí saem na rua e o rapaz estufa o peito: “Essa aqui é minha esposa!”. A moça sorri para as vizinhas: “Meu marido é um amor”. Esposa? Marido? Calma lá, meu caro. No papel, legalmente falando, o status de vocês dois ainda é o de “coabitantes de ocasião com divisão voluntária de boletos”.
A pergunta que não quer calar nos corredores da vida é simples: se até para a batedeira de bolo a gente exige certidão de propriedade, por que o amor da sua vida tem que ficar no contrato verbal?
Existe um charme imensurável que a modernidade pressurosa tentou aposentar, mas que nenhuma praticidade substitui. Onde foi parar aquele momento glorioso em que o sujeito, tomado de um surto de romantismo corajoso, ajoelha no chão, correndo o risco de estragar o joelho, e faz o pedido formal? Aquele instante fica gravado na memória da mulher para o resto dos dias.
E a cerimônia? O pai caminhando orgulhoso pelo corredor, segurando o braço da filha vestida de noiva, parecendo uma visão de cinema; a mãe conduzindo o noivo até o altar, enxugando o canto do olho; os amigos na nave da igreja prendendo o choro para não desmanchar a pose. A emoção de olhar nos olhos um do outro e assumir publicamente: “Eu sou dela, ela é minha, e daqui ninguém nos tira”.
Além do romance, há a matemática da vida real. O casal constrói a vida junto. Compram a casa tijolo a tijolo, financiam o sofá, criam os filhos e dividem as conquistas. As coisas não são “só dele” nem “só dela”, o império é dos dois. Colocar o sobrenome no documento, oficializar a união no cartório e na fé, não é mera burocracia. É o ato supremo de dizer que aquela parceria tem valor, tem peso legal, tem nome e sobrenome.
Se até para comprar um consórcio a gente assina com caneta azul e reconhece firma, defender a parceira de uma vida inteira merece muito mais do que um acordo informal. Amor de verdade gosta de ter nome na certidão.
No fundo, vale a pena olhar bem nos olhos de quem divide a vida com você há tanto tempo e se perguntar: por que ainda não somos casados de fato?
Morar junto sem o passo definitivo é, no fim das contas, brincar de casamento, é querer desfrutar dos bônus da vida a dois sem assumir o compromisso por inteiro, vivendo um confortável “faz de conta” em vez da vida real.
Tanto a psicologia quanto a teologia concordam nesse ponto: enquanto a mente humana necessita da segurança do rito e do pacto público para construir um sentimento pleno de pertencimento e estabilidade emocional, a fé nos ensina que o matrimônio é uma aliança sagrada de proteção mútua e propósito, e não um mero teste drive.
Assumir o outro por inteiro (no altar, no papel e no coração) é o maior ato de maturidade, respeito e amor que um casal pode edificar.













