Salvador (BA) – O desenvolvimento completo de uma criança, que engloba habilidades motoras, cognitivas, comunicativas e sociais, está diretamente ligado à saúde ocular. O alerta, feito pela oftalmologista Maria de Fátima Neri durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, realizado em Salvador, ressalta que a baixa visão na infância transcende a simples queda da acuidade visual.
A especialista enfatiza que o impacto de um déficit visual atinge a maneira como o jovem explora o ambiente e interage com o mundo. Por isso, a identificação prematura do quadro é determinante para que a criança consiga aproveitar sua visão residual, permitindo o desenvolvimento de estratégias funcionais que garantam mais autonomia para o seu futuro.
Diversos fatores podem levar ao comprometimento da visão nos primeiros anos de vida. Entre as causas mais frequentes estão condições como catarata e glaucoma congênitos, anomalias no nervo óptico, albinismo, alta miopia, distrofias hereditárias da retina, doenças neurológicas, deficiência visual cortical e a prematuridade. Além disso, infecções como a sífilis, a toxoplasmose e o citomegalovírus figuram como agentes causadores de retinopatias severas.
Para identificar o problema, os pais devem observar sinais clássicos de alerta. Comportamentos como não acompanhar objetos com o olhar, manter pouca fixação visual, aproximar excessivamente brinquedos ou livros dos olhos e tropeçar com frequência em ambientes conhecidos são indicadores de que algo não vai bem. A fotofobia, a busca incessante por luz e a dificuldade de reconhecer pessoas próximas também merecem atenção imediata, assim como qualquer atraso no desenvolvimento que não possua uma causa aparente definida.
O acompanhamento clínico exige uma parceria estreita entre médicos e familiares. É necessário investigar o que a criança consegue realizar no cotidiano, como ela se adapta a diferentes intensidades de iluminação e quais atividades foram abandonadas por conta das limitações visuais. A oftalmologista destaca que o tratamento não deve se restringir apenas ao olho, mas sim ao indivíduo como um todo.
Um plano de habilitação eficaz precisa ser multidisciplinar. O suporte deve envolver áreas como a estimulação visual funcional, o uso de recursos ópticos e não ópticos, tecnologia assistiva, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia e pedagogia. Essa rede de apoio é fundamental para que a criança contorne dificuldades de orientação e mobilidade.
Em última análise, o cuidado com a visão infantil é uma proteção ao futuro. Ao intervir cedo, a equipe de saúde assegura que a criança mantenha as ferramentas necessárias para construir sua experiência de mundo, garantindo que o aprendizado e a interação social ocorram de forma plena, sem que as restrições oculares limitem o potencial de desenvolvimento global do indivíduo.











