São Paulo (SP) – O aumento preocupante de quadros de dependência em apostas virtuais, conhecidas como bets, tem levado profissionais de saúde mental a reforçar um alerta urgente sobre os riscos à integridade física dos pacientes. Especialistas ouvidos nesta quinta-feira, data que marca o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, destacam que a ideação suicida deve ser tratada com naturalidade dentro dos consultórios e grupos terapêuticos, funcionando como uma ferramenta para reduzir danos e oferecer suporte emocional antes que a situação se torne irreversível.
Katia Branco, psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo e supervisora do Grupo Pro-Amiti, observa que muitos pacientes chegam ao tratamento com um quadro de humor deprimido acentuado. Segundo a especialista, o desespero gerado pelas perdas financeiras intensifica a ansiedade e, em casos mais severos, conduz diretamente à ideação suicida. O desafio, aponta a médica, é reconhecer sinais de alerta como o isolamento social, o consumo excessivo de álcool e mudanças abruptas de comportamento que denotam um estado de desesperança profunda.
A raiz desse comportamento também possui componentes orgânicos. O neurocirurgião Orlando Maia, que atua no Rio de Janeiro, explica que o ato de apostar estimula o cérebro a liberar dopamina, criando um sistema de recompensa que, gradualmente, passa a sobrepor-se aos mecanismos de controle de decisão. Esse estímulo contínuo, aliado à frustração de perdas sucessivas, cria um ciclo de adoecimento que exige estratégias multidisciplinares envolvendo medicina, psicologia e atividade física para a retomada do controle sobre a própria vida.
Para a psicóloga Claudia Feres, que trabalha em Centros de Apoio Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, a tentativa de autoextermínio muitas vezes não reflete o desejo genuíno de morrer, mas um pedido de socorro desesperado por quem não encontra mais saída. Ela reforça a necessidade de um acolhimento que inclua a família, sublinhando que a solução para o vício em apostas não é estritamente individual, mas exige um movimento coletivo de proteção.
O cenário é agravado pela onipresença das apostas no cotidiano. A psiquiatra Giovanna Quinet, da Clínica Revitalis, pontua que a disponibilidade 24 horas por dia através do celular, aliada a uma publicidade agressiva, dificulta que o usuário perceba quando a recreação se transforma em um transtorno. Quando a aposta se torna o centro da vida, o indivíduo entra em um padrão de esconder dívidas e aumentar o volume de jogo na vã tentativa de recuperar o que perdeu, o que gera vergonha, culpa e, eventualmente, o colapso emocional.
Em nota, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirma que o enfrentamento ao jogo problemático exige uma atuação coordenada entre o poder público e o setor privado. Enquanto isso, especialistas reiteram que, diante de qualquer sinal de risco de suicídio, a pessoa jamais deve ser deixada sozinha. Em situações críticas, o contato com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo telefone 192, ou com o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo número 188, são os canais imediatos de auxílio.












