Juiz de Fora (MG) – Duas das mais prestigiadas instituições de ensino superior do país, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reconheceram publicamente um passado sombrio envolvendo o uso de cadáveres de pacientes de hospitais psiquiátricos em suas aulas de anatomia. O pedido de desculpas, formalizado pela UFJF nesta segunda-feira (18) e pela UFMG no mês anterior, marca uma tentativa de reparação histórica em relação a indivíduos que, durante décadas, foram submetidos a condições degradantes e ao descarte de seus corpos após a morte.
A carta aberta divulgada pela UFJF admite abertamente a conivência da instituição com um dos períodos mais sensíveis da saúde pública brasileira. O texto aponta que a segregação social, justificada na época sob o pretexto de uma suposta segurança coletiva, resultou em isolamento profundo e violências sistemáticas. Indivíduos que não se encaixavam nos padrões sociais vigentes eram frequentemente relegados a condições precárias de sobrevivência, enfrentando práticas punitivas que ignoravam qualquer traço de humanidade.
O estigma como ferramenta de exclusão
A loucura, naquele contexto, foi erroneamente associada à incapacidade e à periculosidade. Esse processo de rotulagem não apenas deteriorou a identidade social dessas pessoas, mas também consolidou preconceitos profundos. A nota técnica da universidade explica que critérios como raça, gênero, classe social e orientação sexual serviam como filtros para hierarquizar a desumanização dos pacientes. O desprezo por essas vidas tornou-se parte indissociável da história nacional, sendo o Hospital Colônia de Barbacena um símbolo trágico dessa marginalização e invisibilidade.
Dados históricos indicam que mais de 60 mil pessoas morreram no Hospital Colônia ao longo do século XX. Muitas delas foram enterradas como indigentes ou tiveram seus restos mortais comercializados para faculdades de medicina. Registros revelam que 1.853 corpos foram vendidos para instituições de ensino com o propósito de suprir as necessidades das aulas de anatomia. Somente a UFJF, entre 1962 e 1971, recebeu 169 desses corpos para estudo no Instituto de Ciências Biológicas.
Esforços de reparação histórica
Como medida de reparação simbólica, a UFJF se comprometeu a promover ações educativas voltadas aos direitos humanos e à saúde mental, além de buscar apoio para a construção de um memorial. A instituição planeja realizar pesquisas documentais detalhadas para esclarecer os vínculos passados com o Hospital Colônia. Desde 2010, o departamento de anatomia da universidade opera sob o programa Sempre Vivo, que utiliza exclusivamente corpos doados de forma voluntária, seguindo rigorosos padrões éticos e legais de respeito à dignidade.
A UFMG adotou postura semelhante ao formalizar um pedido de desculpas público. A universidade reconheceu sua responsabilidade pelas atrocidades cometidas e anunciou a restauração do livro histórico de registro de cadáveres, além de integrar o debate sobre a luta antimanicomial em suas disciplinas de medicina. A instituição destaca que, desde 1999, conta com um programa de doação voluntária, alinhado às práticas éticas internacionais, rompendo definitivamente com o modelo de exploração de corpos de pessoas vulneráveis.
Legado e reflexão cultural
O debate sobre a desumanização nos hospitais psiquiátricos ecoa em produções culturais fundamentais. O conto O Alienista, de Machado de Assis, permanece como uma referência literária incontornável para entender as fronteiras entre a razão e a exclusão. Paralelamente, o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, cujas contribuições estão preservadas no Museu Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, continua a inspirar novas abordagens que priorizam o cuidado humanizado e a expressão artística como ferramentas terapêuticas, desafiando a lógica de contenção que marcou a psiquiatria brasileira por tanto tempo.












