Cachoeiro do Itapemirim (ES) – O exercício do jornalismo no Brasil tem cobrado um preço alto de quem está na linha de frente da notícia. Um levantamento recente, divulgado nesta segunda-feira (14), detalha um quadro de vulnerabilidade que atinge o bem-estar psicossocial dos profissionais, impulsionado por uma combinação perigosa de carga de trabalho exaustiva, falta de suporte corporativo e exposição frequente a episódios de violência.
A pesquisa, realizada pela Fundacentro em parceria com a Fenaj, ouviu 257 profissionais e revelou números que superam médias nacionais de saúde. Quase metade dos entrevistados, 48%, convive com quadros de insônia. O impacto emocional é igualmente expressivo: 36% relataram sinais de ansiedade, enquanto 50% afirmaram enfrentar sintomas de depressão, sendo que uma parcela significativa classifica o problema em níveis severos ou extremamente severos.
O ambiente de trabalho, muitas vezes marcado por alta pressão e escassa interação social, reflete diretamente no comportamento desses trabalhadores. Cerca de 21,5% dos consultados apresentam padrões de consumo de álcool considerados de risco, nocivos ou sugestivos de dependência. Bruna Balarotti e Elaine Cristina Marqueze, responsáveis pelo estudo, alertam que o estresse inerente à profissão acaba potencializado por fatores organizacionais que desamparam o indivíduo diante de demandas intensas.
Um dos pontos mais críticos do diagnóstico refere-se ao assédio. Aproximadamente 26% a 37% dos profissionais já foram vítimas de assédio moral, além de 30% que relatam sofrer com o cyberbullying. Essas violências, tanto no mundo físico quanto no digital, somam-se a uma sensação de isolamento: 61% dos jornalistas afirmam receber pouco ou nenhum suporte de colegas e superiores, o que reduz o controle sobre a rotina e compromete a satisfação profissional.
A gravidade da situação extrapola o bem-estar individual dos repórteres, editores e demais profissionais da imprensa. A presidenta da Fenaj, Samira de Castro Cunha, observa que a precarização das condições de trabalho atinge, em última instância, a própria qualidade da informação entregue à população. Como o jornalismo é um pilar da democracia, o desgaste daqueles que produzem o conteúdo gera reflexos institucionais profundos.
A análise, apresentada recentemente ao Congresso Nacional, serve como um chamado urgente para que empresas de comunicação, entidades de classe e o Estado revisem as políticas de proteção ao setor. Sem mudanças concretas na estrutura dos ambientes de trabalho, o esgotamento dos jornalistas continuará a ser uma ameaça não apenas para a saúde da categoria, mas para o direito coletivo de acesso a um jornalismo bem feito e, acima de tudo, humano.












