A cada ano, centenas de mulheres brasileiras perdem a vida durante a gravidez ou até 42 dias após o parto. A taxa de mortalidade materna no país, que em 2024 atingiu 56,4 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos — totalizando 1.347 mortes —, mostra um cenário preocupante. O objetivo estabelecido é ambicioso: cair para 30 mortes por 100 mil nascidos vivos até 2030.
A maioria dessas perdas, nove em cada dez, poderia ser evitada, aponta a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). O governo federal lançou, em 2024, a Rede Alyne, um programa que busca reduzir em 25% a mortalidade materna até 2027, com um foco ainda maior, de 50%, para mulheres pretas no mesmo período. A iniciativa é uma releitura da antiga Rede Cegonha, e homenageia Alyne Pimentel, que faleceu aos 28 anos em 2002, grávida, por falta de atendimento adequado no Rio de Janeiro.
A qualidade do pré-natal é um divisor de águas. Para Maria Isabel Peixoto, chefe da Unidade da Saúde da Mulher da Maternidade-Escola da UFRJ, um acompanhamento precoce e bem feito, que aborde todas as variáveis da gestação, aumenta significativamente as chances de um parto seguro. A unidade é referência em casos de alto risco e preza pela transmissão de conhecimento e pela assistência de excelência.
As complicações obstétricas diretas — como síndromes hipertensivas, hemorragias e infecções — respondem por 66% das mortes maternas. Fernanda Lopes de Almeida, 41, técnica de enfermagem grávida de 18 semanas, exemplifica a importância do cuidado. Acompanhada na Maternidade-Escola UFRJ devido à hipertensão e histórico de diabetes gestacional, ela relata sentir-se segura com as orientações e o monitoramento constante.
Além do acompanhamento médico, a atuação de uma equipe multiprofissional é crucial. Renné Costa, enfermeiro obstétrico e membro do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), defende a colaboração entre as diversas áreas da saúde, sempre com o foco na mãe e no bebê. Ele cita sua experiência em Viçosa, Alagoas, onde o trabalho da enfermagem, amparado pela lei, expandiu o número de partos de 80-90 para 600 anuais, sem perdas de mães ou bebês.
O pós-parto, período conhecido como puerpério, também demanda atenção redobrada. Inessa Beraldo de Andrade Bonomi, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco da Febrasgo, alerta que a mulher, ao voltar para casa, pode ter o acompanhamento reduzido. Sinais de alerta, como sangramento excessivo, febre persistente ou dores de cabeça intensas, não devem ser ignorados. Consultas puerperais precoces, idealmente nos primeiros sete a dez dias após o parto, são fundamentais para avaliar e gerenciar condições preexistentes.
A saúde mental no puerpério é outro ponto crítico. Tristeza profunda, ansiedade, insônia e até pensamentos de autoagressão exigem intervenção imediata. Olhar para o bem-estar psíquico, segundo Bonomi, é essencial para prevenir desfechos trágicos. O programa Rede Alyne busca exatamente oferecer um cuidado humanizado e integral, considerando as desigualdades que ainda persistem no país.











