Aracaju (SE) – No limite sul de Aracaju, o asfalto e o concreto avançam sobre o que resta de um território ancestral. Ali, cercadas pela expansão imobiliária, as famílias da Associação de Catadoras e Catadores de Mangaba Padre Luiz Lemper lutam para manter de pé uma tradição de oito décadas. O fruto, considerado patrimônio cultural de Sergipe, virou o centro de uma disputa territorial e ecológica que redesenha a periferia da capital.
A resistência ganhou fôlego com o Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade, concedido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. A premiação rendeu R$ 45 mil à associação presidida por Maria Eliene Santos. O recurso financia oficinas e o turismo de base comunitária, em parceria com a Universidade Federal de Sergipe (UFS) e a Embrapa. Durante a recente Festa da Colheita, a comunidade lançou um Plano de Manejo Popular para a Reserva Extrativista (Resex) Mangabeiras Missionário Uilson de Sá, uma tentativa de frear a proposta municipal de converter a área protegida em um parque urbano aberto.
Herança de conflitos e perdas
O território tradicional, que inclui a Resex e uma área da União concedida para uso sustentável, guarda cicatrizes profundas. Nos anos 2010, a construção de moradias populares no Bairro 17 de Março, financiada pelo Banco Mundial, suprimiu centenas de árvores. Foi nesse cenário que o missionário Uilson de Sá organizou a comunidade antes de ser encontrado morto em novembro de 2022. Embora a polícia tenha concluído que a morte por asfixia foi acidental, o nome do ativista batiza a reserva.
Sua mãe, dona Zenaide, uma das matriarcas locais, relata que o perigo persiste. O impacto urbano também é ecológico: prédios próximos afastam mariposas polinizadoras, e a trepidação dos veículos prejudica os frutos. A pressão cobra seu preço histórico. Sergipe, que já liderou a produção nacional de mangaba, caiu para a quarta posição no ranking do IBGE em 2023, superado por Paraíba, Rio Grande do Norte e Minas Gerais.
Alternativas e a resposta do município
Para contornar as crises e garantir renda na entressafra, que vai de julho a novembro, as catadoras buscam o fortalecimento do turismo ecológico e a inserção no Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). A prefeitura de Aracaju, por sua vez, afirma que a elaboração do plano de manejo oficial depende da indicação de representantes da comunidade para o conselho gestor. O município nega planos para transformar a Resex em parque público e promete executar o projeto de uma unidade de beneficiamento da mangaba, desenvolvido pela Empresa Municipal de Obras e Urbanização (Emurb) com a colaboração das próprias extrativistas.











