Vitória (ES) – Quando se fala em superdotação, a imagem mais comum ainda é a de uma criança com notas impecáveis, facilidade para aprender e desempenho excepcional na escola. Entre as mulheres, porém, o reconhecimento das altas habilidades pode acontecer muito mais tarde. Algumas passam infância, adolescência e até boa parte da vida adulta sem compreender por que apresentam uma forma diferente de pensar, aprender e perceber o mundo.
O assunto ganha destaque no dia 10 de agosto, Dia da Superdotação, especialmente diante de histórias envolvendo famosas como Fabiana Karla, Shakira, Geovanna Tominaga, Natalie Portman e Bruna Louise. A repercussão desses casos ajuda a ampliar uma discussão que vai além da fama: por que tantas mulheres só descobrem as altas habilidades depois de adultas?
Segundo Fabrícia Signorelli, psiquiatra, especialista em TDAH, TEA e altas habilidades do Supera, a identificação pode ser dificultada pelas expectativas sociais impostas às meninas desde a infância.
“Existe uma expectativa social de que meninas sejam mais quietas, organizadas, obedientes e menos desafiadoras. Com isso, alguns sinais de altas habilidades podem passar despercebidos. Muitas vezes, a menina não é menos capaz, ela simplesmente não é percebida pelos adultos ao redor.”
Quando a capacidade passa a ser escondida
A necessidade de aceitação pode fazer com que algumas meninas aprendam a controlar a própria exposição intelectual. Em vez de demonstrar conhecimento ou fazer perguntas constantemente, elas podem reduzir a participação e evitar situações em que chamariam atenção.
“Existe uma pressão social para que meninas sejam discretas e não se destaquem demais. Algumas podem aprender a esconder ou controlar a própria capacidade para conseguir maior aceitação social. Isso pode fazer com que respondam menos em sala, evitem determinadas atividades ou deixem de mostrar aquilo que sabem.”
Esse comportamento pode acompanhar a mulher por diferentes fases da vida e contribuir para que características relacionadas às altas habilidades permaneçam sem identificação. O resultado pode ser uma trajetória marcada por tentativas de adaptação e pela sensação de que é necessário diminuir determinadas características para se encaixar.
Superdotação não é sinônimo de desempenho perfeito
Outro estereótipo que pode dificultar a identificação é a ideia de que toda pessoa superdotada precisa apresentar notas máximas, facilidade em todas as disciplinas ou desempenho excepcional o tempo inteiro. As altas habilidades podem aparecer de maneira desigual.
“Esperar que uma pessoa superdotada seja brilhante o tempo inteiro é um erro. O perfil pode ser desigual. Ela pode ter uma capacidade muito acima da média em determinada área e apresentar um desempenho apenas mediano em outra. Essa cobrança pelo excepcional o tempo todo pode contribuir para que meninas e mulheres sejam menos reconhecidas.”
A superdotação também não deve ser reduzida à ideia de um quociente de inteligência elevado. O perfil pode envolver facilidade de aprendizagem, criatividade, pensamento complexo, curiosidade intelectual intensa e capacidade de estabelecer conexões rapidamente.
A sensação de não pertencer
A percepção de ser diferente pode acompanhar algumas mulheres desde a infância. Interesses muito variados, perguntas profundas, necessidade de compreender detalhadamente determinados assuntos e busca constante por novos estímulos podem fazer parte dessa trajetória.
Para algumas mulheres, a falta de identificação pode fazer com que essas características sejam interpretadas apenas como excesso de curiosidade, inquietação ou dificuldade de adaptação. Sem compreender o próprio funcionamento, elas podem passar anos tentando encontrar uma explicação para a sensação de não pertencer.
“Algumas mulheres passam muito tempo tentando entender por que se sentem diferentes. Quando a identificação acontece, pode haver uma possibilidade de ressignificar experiências antigas de inadequação e compreender melhor determinadas características. Não significa explicar tudo pela superdotação, mas ter uma informação importante sobre o próprio funcionamento.”
Ansiedade, TDAH e superdotação podem se confundir
Pensamento acelerado, necessidade constante de estímulo, dificuldade para dormir por excesso de ideias e busca por desafios intelectuais podem ser interpretados de maneiras diferentes. Além disso, altas habilidades podem coexistir com TDAH, ansiedade e depressão, tornando necessária uma avaliação criteriosa.
“A superdotação pode coexistir com outros transtornos, mas também pode ser confundida com eles. Pensamento acelerado, dificuldade para dormir devido ao excesso de ideias ou necessidade constante de desafios intelectuais nem sempre significam um transtorno psiquiátrico. Por isso, a avaliação deve ser ampla, individualizada e baseada em critérios científicos.”
A intensidade emocional também pode fazer parte da experiência de algumas mulheres com altas habilidades. Por isso, observar o conjunto de características e a história de cada pessoa é fundamental para evitar interpretações simplificadas.
O que muda depois da descoberta?
Para uma mulher que passou décadas sem compreender o próprio funcionamento, a identificação pode ajudar a reorganizar experiências antigas e construir uma relação mais saudável com suas características.
“Quando a paciente entende que existe uma explicação para aquilo que viveu desde a infância, ela consegue ressignificar muitas experiências. Isso reduz a culpa, melhora a autoestima e permite desenvolver estratégias mais saudáveis para lidar com suas características e potencialidades.”
O reconhecimento, no entanto, não deve ser encarado apenas como um diagnóstico ou uma explicação para dificuldades anteriores. Também é importante criar condições para que as capacidades identificadas possam ser desenvolvidas.
“Depois da identificação, é importante pensar não apenas no reconhecimento das altas habilidades, mas também em como oferecer oportunidades para que esse potencial seja desenvolvido. Ambientes com novidade, variedade e desafios progressivos favorecem o engajamento e a expressão das capacidades individuais.”
A discussão sobre famosas como Fabiana Karla, Shakira, Geovanna Tominaga, Natalie Portman e Bruna Louise contribui para desconstruir a ideia de que existe apenas um perfil de pessoa superdotada. Entre as mulheres, reconhecer diferentes formas de manifestação das altas habilidades pode ser especialmente importante para aquelas que passaram anos tentando se adaptar, esconder suas capacidades ou interpretar suas diferenças como defeitos.
Como explica Fabrícia Signorelli, identificar as altas habilidades não significa transformar a superdotação em doença nem tratá-la como um privilégio absoluto.
“A superdotação não é um transtorno e tampouco um privilégio absoluto. Trata-se de uma condição que traz potencialidades, mas também desafios. Quanto mais cedo ela é identificada, maiores são as oportunidades de promover desenvolvimento, saúde mental e qualidade de vida.”












