Bruxelas, Bélgica – O setor de cafés especiais do Brasil acaba de registrar um avanço estratégico importante no mercado europeu. Uma comitiva formada por 77 empresários brasileiros desembarcou na Bélgica e na Inglaterra para uma série de missões comerciais coordenadas pelo projeto “Brazil. The Coffee Nation”, iniciativa que une a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) à Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). O resultado imediato da incursão foi o fechamento de 33,1 milhões de dólares em negócios diretos. As perspectivas para o próximo ano, no entanto, são ainda mais audaciosas, com uma projeção de 218,9 milhões de dólares, totalizando um impacto potencial de 252 milhões de dólares na economia do setor.
A força-tarefa não se restringiu apenas ao volume financeiro. Durante a estadia, foram estabelecidos 1.145 contatos de negócios, sendo que quase 650 deles representam conexões inéditas com compradores internacionais. O grupo de 25 empresários que liderou as visitas nas agendas específicas contou com uma participação feminina de peso: nove produtoras ligadas ao projeto “Produzido por Elas”, fruto de uma colaboração entre a BSCA e a International Women Coffee Alliance (IWCA).
A maratona de encontros começou em Londres, no dia 23 de junho. O roteiro de visitas incluiu empresas como Notes Coffee, Grind, Mercanta e Coffee Centre. O objetivo era claro: captar o pulso do mercado britânico e entender as nuances exigidas pelos consumidores locais. Na manhã seguinte, o fluxo de negócios migrou para Bruxelas, na Bélgica. Lá, o grupo manteve conversas com representantes das marcas Wide Awake, MOK e Café Capitale, focando no networking e na compreensão das dinâmicas comerciais da região.
A imersão em solo belga culminou em Antuérpia, onde um tour guiado por Tom Jansen — nome respeitado no cenário de cafés especiais e um dos fundadores da OR Coffee Roasters — detalhou a realidade da torrefação artesanal. As visitas a espaços como Caffènation, Kolonel, Cuperus, Cross Roast e Rush Rush serviram para estreitar laços com quem valoriza o comércio direto com o produtor.
Conexões em feira global
Entre os dias 26 e 28 de junho, o centro das atenções foi a World of Coffee Brussels. O evento, promovido pela Specialty Coffee Association (SCA), funcionou como o grande palco para produtores, baristas e torrefadores de diversos cantos do mundo. O Brasil marcou presença com um estande estruturado para rodadas de negociações e um brew bar, onde a degustação de cafés nacionais, incluindo os produzidos pelas participantes do “Produzido por Elas”, chamou a atenção dos visitantes. Uma sala de cupping foi reservada exclusivamente para que associados da BSCA pudessem apresentar lotes específicos a interessados internacionais.
Para Vinicius Estrela, diretor executivo da BSCA, a escolha da Europa como alvo não é por acaso. O continente é, hoje, o principal parceiro comercial da categoria de cafés especiais brasileiros. Estrela aponta que os números alcançados reforçam a qualidade do trabalho de promoção, consolidando o Brasil como um fornecedor maduro e confiável no cenário global.
Educação e certificação internacional
Paralelamente às negociações, o setor cafeeiro brasileiro garantiu uma vitória institucional de longo prazo. A BSCA formalizou um Memorando de Entendimento com o Coffee Quality Institute (CQI). Com o acordo, a associação brasileira passa a ser a representante exclusiva da entidade americana no país. A intenção é simplificar e ampliar o acesso dos profissionais brasileiros aos programas de certificação e treinamento de alto nível do instituto.
Michael Sheridan, CEO do CQI, expressou satisfação com o estreitamento da parceria, que começou em 2014. O executivo admitiu que o custo da educação oferecida pelo instituto é um desafio em mercados emergentes, mas ressaltou que o plano agora é viabilizar o acesso a esses recursos técnicos de forma mais ampla no Brasil. A meta para os próximos meses é identificar e certificar mais instrutores locais, garantindo que o conteúdo seja ministrado em português. Luiz Roberto Saldanha, presidente da BSCA, enxerga no movimento uma mudança de patamar para a cafeicultura nacional, permitindo que produtores de diferentes escalas tenham acesso às mesmas ferramentas de controle de qualidade que ditam as regras do mercado mundial.
Representação em campeonatos
A presença brasileira na World of Coffee Brussels também foi sentida nas competições técnicas. Carolina Franco, gerente técnica da BSCA, atuou como juíza no Campeonato Mundial de Brewers Cup. Sua trajetória incluiu etapas rigorosas de calibração para garantir a imparcialidade, chegando a atuar nas bancas finais da disputa. A campeã brasileira da modalidade, Juliana Morgado, representou o país com uma performance que destacou a excelência das mulheres no campo e na xícara, surpreendendo os jurados pela complexidade do café apresentado.
O país também teve representantes no Campeonato Mundial de Torra de Café, com a participação de Fábio Milan, que, aos 21 anos, carrega o título de campeão nacional mais jovem do país. Já no Campeonato Mundial de Coffee in Good Spirits (CIGS), o representante brasileiro Léo Oliva apostou em uma abordagem autêntica, trazendo elementos culturais, como a releitura do quentão em uma bebida à base de café, para o ambiente da competição.
Identidade e mercado
O projeto “Brazil. The Coffee Nation” projeta ações até agosto de 2027, sempre com o norte de elevar a imagem do produto brasileiro no exterior. A estratégia foca não apenas no café arábica, mas também no fortalecimento das variedades canéfora (robusta e conilon). A busca por equidade de gênero, rastreabilidade plena e conformidade com as exigências socioambientais globais compõe o pilar de sustentabilidade da marca.
Os mercados-alvo seguem um critério técnico rigoroso: enquanto países como Estados Unidos, Japão, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes, França e Austrália são focos para o café cru, a exportação de produtos industrializados, como cafés torrados e moídos, volta-se mais para o Canadá, Chile, China e os Estados Unidos. Empresas brasileiras que desejam integrar as próximas rodadas do projeto podem buscar orientações técnicas junto à equipe da BSCA ou através dos canais de relacionamento da ApexBrasil.
Estrutura de apoio
A ApexBrasil continua atuando como a principal ponte entre a oferta brasileira e a demanda internacional. A agência organiza desde missões prospectivas — aquelas destinadas a entender novos mercados — até a recepção de compradores estrangeiros em propriedades brasileiras, criando um ciclo de valorização que começa na fazenda e termina no consumidor final europeu ou asiático.
A BSCA, por sua vez, carrega o histórico de quem introduziu a certificação e a rastreabilidade no país. Desde sua fundação em 1991, a entidade atua como gestora de um padrão que, hoje, serve de referência global. Com selos de controle numerados e um monitoramento contínuo dos lotes, a associação sustenta o posicionamento de vanguarda que o café brasileiro conquistou nas últimas décadas. A jornada pela Europa, em 2024, reafirma essa posição de protagonismo, combinando a venda direta com o investimento necessário em educação e capital humano, elementos que, no final das contas, definem a competitividade no mercado de cafés especiais.
A cada ano, os desafios crescem, exigindo mais eficiência na produção e sofisticação na entrega. No entanto, o desempenho recente da comitiva em Bruxelas, Antuérpia e Londres demonstra que, apesar dos obstáculos logísticos e da concorrência internacional, a consistência na qualidade e o foco estratégico em novas parcerias continuam sendo os motores principais do setor.
Se o objetivo é consolidar o Brasil como a maior potência em cafés de alta complexidade, o trabalho realizado nestes dias de junho não representa apenas uma série de reuniões bem-sucedidas. É parte de um esforço coletivo para mudar a percepção do mercado consumidor sobre o que é — e o que pode ser — o café especial vindo de solo brasileiro. A união entre a ciência da torra, a excelência dos baristas e a tecnologia aplicada no campo parece ser o caminho escolhido para garantir que o setor continue, nos próximos anos, a ocupar o topo da preferência global.











