Washington, Estados Unidos – A partir da madrugada desta sexta-feira (24), exportadores brasileiros que vendem para os Estados Unidos terão de recalcular seus custos de forma drástica. Uma nova sobretaxa de 12,5%, anunciada na quinta-feira (23) pelo governo americano, elevou a barreira tarifária sobre parte dos produtos do país para pesados 37,5%. Washington justifica a medida alegando que o Brasil falha em fiscalizar e barrar a entrada, em seu próprio território, de insumos produzidos globalmente com uso de trabalho forçado.
O anúncio partiu do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). A decisão tem como base jurídica a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Com essa nova regra, a administração americana substitui a tarifa global e temporária de 10% que vigorava desde fevereiro, somando os novos 12,5% à outra sobretaxa — de 25% — que já havia entrado em vigor no último dia 22.
A justificativa americana
Para o Representante Comercial dos EUA, Jamieson Greer, a postura brasileira cria um desequilíbrio concorrencial injusto para a indústria americana. O argumento de Washington é que, ao permitir que mercadorias produzidas sob condições análogas à escravidão circulem em seu mercado interno, o Brasil acaba barateando seus próprios custos de produção de forma artificial.
Segundo o relatório do USTR, que analisou o período de 2021 a 2025, o Brasil importou produtos contaminados por trabalho forçado em cinco setores: alumínio, algodão, eletrônicos, baterias de lítio e tabaco. Embora os americanos reconheçam que o governo brasileiro mantém a Lista Suja do Trabalho Escravo e assine tratados internacionais, consideram que faltam barreiras alfandegárias robustas para impedir a entrada desses bens.
O cenário global e as disputas paralelas
A ofensiva de Washington não mira apenas o mercado brasileiro. O escrutínio do USTR analisou 60 parceiros comerciais. O Brasil acabou no grupo de 54 nações penalizadas com a mesma taxa de 12,5% — uma lista que inclui gigantes como China, Japão, Reino Unido, Índia e África do Sul, além da Argentina. Outro bloco, composto por União Europeia, México, Canadá, Equador, Indonésia e Paquistão, recebeu uma punição de 10%, por possuir regras de controle consideradas existentes, mas ainda insuficientes.
Esses novos percentuais substituem a barreira linear de 10% adotada por Trump em fevereiro, que surgiu após a Suprema Corte americana derrubar as “tarifas recíprocas” do ano anterior. No caso brasileiro, o impacto se acumula com os 25% aplicados dias atrás, motivados por contestações americanas sobre o mercado de etanol, propriedade intelectual, combate à corrupção, desmatamento ilegal e políticas comerciais preferenciais.
A contraofensiva de Brasília
A reação do Palácio do Planalto foi imediata. Por meio de nota da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), o governo federal classificou o movimento como arbitrário e injustificado. O país defende que já enviou relatórios demonstrando o rigor de sua fiscalização interna e o prestígio internacional de suas políticas de combate ao trabalho escravo.
O Ministério das Relações Exteriores prepara o contra-ataque. O chanceler Mauro Vieira declarou que as punições são desproporcionais. O plano brasileiro agora corre em duas frentes: acionar a Lei de Reciprocidade e levar uma denúncia formal ao órgão de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para mitigar os prejuízos das empresas afetadas, o governo aposta no Plano Brasil Soberano, oferecendo linhas de crédito e incentivando a abertura de novos mercados.









