Campo Novo do Parecis (MT) – O cenário encontrado em uma fazenda de algodão na zona rural de Campo Novo do Parecis, no Mato Grosso, revelou uma estrutura de exploração que remontava a práticas proibidas há décadas. No dia 8 de junho, uma força-tarefa composta por auditores-fiscais do Trabalho e agentes da Polícia Federal interceptou um ciclo de violações contra 35 trabalhadores. O grupo, vindo de cidades do interior de Minas Gerais, fora contratado para uma tarefa braçal: o controle de plantas daninhas na imensa lavoura mato-grossense.
A entrada dos fiscais no local não foi simples. Representantes da empresa tentaram obstruir a fiscalização logo na chegada, criando dificuldades deliberadas para que a inspeção não avançasse pelas frentes de trabalho. Quando conseguiram acesso, os auditores se depararam com um padrão de degradação estruturado. Os operários viviam confinados em contêineres minúsculos — caixas metálicas de pouco mais de 14 metros quadrados onde chegavam a se amontoar nove pessoas. O espaço mal comportava os corpos, que dirá oferecer algum tipo de conforto ou privacidade mínima após jornadas exaustivas.
O risco à saúde ia muito além do confinamento. Enquanto manuseavam a lavoura, os homens eram atingidos por pulverizações aéreas de agrotóxicos. O relato de quem estava na linha de frente é angustiante: aeronaves despejavam químicos mesmo com os trabalhadores em campo, e as substâncias chegavam perto dos alojamentos. Não era raro ouvir queixas de náuseas, falta de ar e queimaduras na pele, sintomas claros de intoxicação por produtos agrícolas. O saneamento, por sua vez, era inexistente. Banheiros sem conservação, acúmulo de matéria orgânica e moscas faziam parte do cotidiano, enquanto a hidratação era feita no gargalo de recipientes compartilhados, um convite aberto a doenças.
A restrição de liberdade não ocorria apenas pela distância dos municípios de origem. Os alojamentos eram cercados por grades e arame farpado, sob vigilância contínua, o que impedia qualquer movimento autônomo dos empregados. Na lavoura, a precariedade era total: sem acesso a água potável, refeitórios ou instalações sanitárias, os trabalhadores faziam suas refeições sentados diretamente sobre a terra, protegendo-se do sol apenas pela sombra do ônibus que os conduzia.
Após a comprovação de violações tão graves à Constituição e à legislação trabalhista, o resgate foi oficializado. A Auditoria Fiscal do Trabalho garantiu, agora, o pagamento dos direitos e a liberação das guias para o seguro-desemprego especial destinado a vítimas desse tipo de exploração. A sociedade pode colaborar denunciando situações semelhantes através do Sistema Ipê, ferramenta criada para receber alertas de forma anônima e auxiliar o combate ao trabalho escravo em todo o país.













