Évian, França – Enquanto as maiores potências econômicas se reuniam na sofisticada Évian, na França, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou à Cúpula do G7, nesta terça-feira (16), um diagnóstico amargo sobre o cenário geopolítico. Convidado para o encontro, o líder brasileiro usou seu palanque para confrontar os países ricos com a realidade do Sul Global, apontando que o abismo entre a opulência dos tomadores de decisão e a escassez enfrentada por bilhões de pessoas só faz crescer.
Para ilustrar a disparidade extrema que define o capitalismo atual, Lula recorreu a uma comparação direta. Sem citar o nome de Elon Musk, ele lembrou que o primeiro trilionário do planeta acumula hoje uma riqueza superior ao patrimônio de 46% de toda a população mais pobre do mundo. A provocação serviu para criticar um modelo econômico estruturado para gerar fortunas imensas, mas incapaz de distribuir oportunidades básicas de forma minimamente equilibrada.
O paradoxo das armas e da fome
O presidente brasileiro concentrou sua argumentação no forte contraste entre o financiamento da guerra e o esvaziamento de iniciativas humanitárias. No ano passado, enquanto as despesas militares globais escalaram até atingir quase US$ 3 trilhões, os órgãos voltados para a sobrevivência humana sofreram cortes severos. Lula lembrou que o Programa Mundial de Alimentos viu suas verbas encolherem cerca de 40%, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Unicef operaram com reduções orçamentárias superiores a 20%.
Esses desvios de recursos para conflitos armados se traduzem em consequências dramáticas para as populações vulneráveis, que ficam sem comida, saúde e educação. A dinâmica financeira internacional, segundo o presidente, funciona como um mecanismo de transferência reversa de riqueza: os países em desenvolvimento pagam anualmente US$ 1,4 trilhão para quitar os serviços de suas dívidas. O montante representa sete vezes mais do que tudo o que essas mesmas nações recebem de ajuda externa dos países ricos.
Duas décadas de promessas sem efeito
O fórum não era uma novidade para o petista, que relembrou sua trajetória internacional. Sua primeira participação ocorreu em 2003, quando o grupo ainda era G8. De lá para cá, Lula marcou presença em outras nove cúpulas do bloco. A experiência acumulada em duas décadas, no entanto, trouxe uma constatação frustrante: a de que, apesar de os desafios globais serem debatidos exaustivamente, as potências têm falhado em construir respostas coletivas duradouras.
Nesse percurso, as receitas econômicas sugeridas pelos países ricos também se mostraram ineficazes. Lula criticou a insistência histórica em dogmas como a desregulamentação de mercados, o enfraquecimento do papel do Estado e políticas de austeridade fiscal rígidas tratadas como fins em si mesmos. Agora, diante do esgotamento desse modelo, ele vê o ressurgimento do protecionismo comercial e do unilateralismo como respostas simplistas e enganosas para a complexidade da crise.
Ao encerrar, o presidente citou as diretrizes da Conferência de Sevilha sobre Financiamento para o Desenvolvimento como o rumo técnico correto a seguir. Para ele, o entrave para a transformação social não decorre de escassez de recursos, mas da falta de compromisso prático das lideranças. O grande déficit global a ser superado hoje, concluiu, é o de implementação e de vontade política.












