Porto Príncipe, Haiti – O cenário encontrado por António Guterres no Haiti nesta terça-feira (16) é o de uma nação à beira do colapso, onde a omissão do restante do planeta deixou de ser uma opção ética. O secretário-geral da ONU não poupou palavras para definir a situação local: é o drama mais severo e acelerado de todo o Hemisfério Ocidental. Sua passagem pela capital, Porto Príncipe, incluiu visitas a abrigos de pessoas deslocadas e conversas estratégicas com a força internacional que tenta conter o avanço das organizações criminosas.
Ao se encontrar com o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, o chefe das Nações Unidas reforçou que o país não precisa de esmolas, mas de um compromisso real que foi prometido e ainda não se concretizou. A conta é desanimadora: o Plano de Resposta Humanitária, orçado em US$ 880 milhões para este ano, arrecadou apenas um quarto do necessário. Com esse orçamento, o socorro chega a 3 milhões de pessoas, mas a necessidade da população de 12 milhões de habitantes é muito maior.
A crise de segurança, que desde janeiro vitimou 2,3 mil pessoas e deixou outras 1,1 mil feridas, tem rostos específicos. Mulheres e crianças são os alvos mais frequentes. O recrutamento de menores por facções armadas triplicou em um ano, enquanto a violência de gênero registra, em média, vinte agressões diárias contra mulheres e meninas. A falta de proteção, ensino e perspectivas de futuro transformou a infância em um território de medo.
A resistência além das estatísticas
Apesar da desesperança que as estatísticas carregam — com 6 milhões de pessoas enfrentando insegurança alimentar e 1,5 milhão forçadas a abandonar suas casas —, Guterres buscou um contraponto. Ele afirmou notar sinais de recuperação em bairros da capital, sugerindo que o Estado começa a retomar espaços anteriormente ocupados pelo crime. Para ele, existe uma resiliência no povo haitiano que desafia a lógica dos números.
Essa força histórica foi evocada em um contexto incomum. Ao discursar, o diplomata lembrou a Batalha de Vertières, de 1803, quando o povo haitiano superou colonizadores franceses. A menção serviu como um recado à própria FIFA, que recentemente vetou o uniforme da seleção haitiana na Copa do Mundo por conter referências a esse conflito histórico. O símbolo da luta de pessoas negras escravizadas contra a opressão, que a entidade esportiva considerou uma violação de regulamento, foi tratado por Guterres como o espírito que ainda pulsa na nação.
A política local segue em um vácuo preocupante. Sob a gestão de Fils-Aimé, apoiada por Washington, o Haiti atravessa uma instabilidade sem precedentes, sem eleições realizadas desde 2016. O apelo por uma transição célere e protagonizada pelos próprios haitianos é, segundo a ONU, a única saída para estancar o que Guterres descreveu como a maior desgraça atual: a indiferença do resto do mundo.
Enquanto a diplomacia debate prazos e fundos, o calendário segue. O Haiti, que tenta reconstruir sua narrativa interna, volta as atenções para o campo de futebol na próxima sexta-feira (19), às 21h30, em um confronto contra o Brasil.










