Assunção, Paraguai – O cenário político no Paraguai sofreu uma mudança drástica nesta quinta-feira, 5 de dezembro. Em uma sessão extraordinária marcada pela urgência, a Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade, o pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña. Os 78 parlamentares presentes votaram a favor do afastamento, retirando o apoio político do Partido Colorado, sigla à qual o presidente pertence e que exerce hegemonia no país há quase oito décadas.
A crise que culminou na queda do mandatário tem origem na falência do banco digital Ueno. O imbróglio financeiro foi agravado após revelações de que Peña manteve participação societária no Grupo Vázquez, controlador da instituição bancária, até março de 2025. A liquidação do banco, ocorrida na última terça-feira, atingiu cerca de 3 milhões de correntistas, bloqueou contas e gerou um clima de instabilidade social que pressionou as bases do governo.
Diante do avanço do processo legislativo, o presidente decidiu antecipar o desfecho. Em um vídeo gravado e divulgado em suas redes sociais, Peña anunciou formalmente sua renúncia. Ele justificou a saída do cargo como uma medida necessária para garantir a paz social e proteger as instituições democráticas paraguaias. Em sua mensagem, o agora ex-presidente pediu desculpas por eventuais falhas durante sua gestão, ressaltando que nenhum cargo deveria se sobrepor à estabilidade da República.
O epicentro das acusações contra Peña envolve a nomeação de Carlos Carvallo para a presidência do Banco Central do Paraguai. Carvallo, que ocupou cargos de direção no banco Ueno até 2023, renunciou ao comando da autoridade monetária após a liquidação da instituição bancária. O caso levantou suspeitas de conflito de interesses, manipulação regulatória e desvio de verbas previdenciárias, além de uma suposta atuação em desacordo com o interesse público.
A situação é particularmente grave devido à exposição dos fundos estatais. O Ueno detinha cerca de 30% dos depósitos de recursos públicos, montante avaliado em 850 milhões de dólares, além de gerir o pagamento de pensões de milhares de aposentados. Em seu pronunciamento, Peña afirmou estar confiante de que o Fundo de Garantia de Depósitos atuará para proteger esses ativos e devolver os valores aos cidadãos.
Com a saída confirmada de Santiago Peña, o vice-presidente Pedro Alliana assume a chefia do Poder Executivo. Embora a Câmara tenha aprovado a abertura do impeachment, o rito constitucional exigia que o Senado também analisasse o processo, sendo necessários dois terços dos votos para uma condenação formal. A renúncia, contudo, encerrou a tramitação na esfera presidencial, embora a bancada governista tenha optado por manter o apoio a Alliana, isolando ainda mais a figura de Peña.
Eleito em 2023 sob a bandeira da direita conservadora, o político agora deixa o comando do país em um momento de incerteza econômica. O Partido Colorado, que sustenta o poder paraguaio desde 1947, com a breve exceção entre 2008 e 2013, enfrenta agora o desafio de reacomodar suas lideranças e estancar a crise gerada pela queda repentina de seu representante máximo.













