Vila Velha (ES) – O combate aos incêndios florestais, um desafio que gerou mais de 8,6 bilhões de toneladas de CO² em 2024, pode ganhar um aliado improvável: um biopolímero desenvolvido por duas estudantes de biotecnologia da PUC-PR. Mariah Fraulo Cavalcante e Taciane Beatriz Ferreira criaram o BIODEFENSER, um retardante de chamas natural que, ao contrário dos compostos químicos tóxicos usados atualmente, promete extinguir o fogo sem agredir a fauna ou a flora local.
A iniciativa colocou a dupla no radar global. Elas são as únicas brasileiras a avançar no Hult Prize 2026, uma competição internacional de startups que busca soluções para problemas mundiais urgentes. Entre 18 mil equipes inscritas em todo o planeta, elas superaram as etapas regional e nacional. O próximo passo é Londres, onde disputarão uma vaga entre os oito finalistas que concorrem ao prêmio de US$ 1 milhão, que servirá de capital semente para tirar a ideia do papel.
A motivação de Mariah surgiu cedo. Filha de um profissional que trabalha com detecção de incêndios, ela cresceu ouvindo sobre a ineficiência e a toxicidade dos produtos convencionais. O projeto começou a ganhar forma no final de 2024, dentro do ecossistema de inovação da própria universidade. “Eu questionava: monitoramos tudo, mas o que realmente contém o fogo?”, lembra a estudante. Com o apoio do professor Luiz Fernando Bianchini, ela transformou uma intuição em pesquisa científica, conseguindo inclusive financiamento inicial de R$ 10 mil via edital de empreendedorismo para adquirir equipamentos.
O diferencial do composto reside na sua composição. Diferente dos retardantes inorgânicos que contaminam nascentes e matam microrganismos, o BIODEFENSER funciona como uma barreira térmica que, após a aplicação, adere à vegetação e ao solo. Testes laboratoriais preliminares mostraram eficácia na contenção das chamas. Mais do que apagar o fogo, o resíduo do produto atua como um fertilizante natural, auxiliando na regeneração da área atingida.
O professor Bianchini destaca que a próxima fase é crucial: a finalização dos testes de estabilidade. “Já estamos em processo de patenteamento. A ideia é criar uma spin-off acadêmica, embora o licenciamento para grandes players do setor também seja uma via possível”, explica. A Embrapa Florestas e a UFPR já sinalizaram apoio para os testes de campo, que verificarão a eficácia real do produto contra grandes proporções de fogo.
Enquanto o resultado do Hult Prize não sai, previsto para setembro, as jovens seguem focadas na burocracia técnica e na prova de conceito. Com o Brasil registrando mais de 10 mil focos de incêndio apenas nos quatro primeiros meses de 2026, a urgência de uma solução sustentável nunca foi tão palpável. Mariah resume o sentimento do projeto: “Se conseguimos chegar até aqui com pouco, a escala do impacto que podemos gerar com o investimento certo é o que nos move”.













