Iúna (ES) – O Atlas Mundial da Obesidade trouxe um diagnóstico preocupante para o cenário nacional: 16,5 milhões de crianças e adolescentes, com idades entre 5 e 19 anos, estão acima do peso ideal. A situação ganha contornos de urgência ao observar que metade desse grupo já enfrenta complicações metabólicas severas, que variam desde o excesso de triglicerídeos na corrente sanguínea até o acúmulo perigoso de gordura no fígado.
A efeméride do Dia da Conscientização contra a Obesidade Infantil, lembrada nesta quarta-feira (03), funciona como uma régua para medir o tamanho desse desafio. A Organização Mundial da Saúde classifica a obesidade como uma patologia crônica decorrente de um acúmulo lipídico anormal. Longe de ser apenas uma questão calórica, o problema atravessa raízes genéticas, gatilhos hormonais e o próprio ambiente onde o jovem se desenvolve.
O tempo dedicado aos aparelhos eletrônicos aparece como um vilão central nessa engrenagem. Juliana Calia, nutricionista do Atendimento Multiassistencial de Saúde, AMAS Humana, identifica um ciclo vicioso: o entretenimento digital afasta o jovem de uma rotina ativa e, simultaneamente, abre espaço para o consumo desenfreado de produtos ultraprocessados. É a cultura do petisco rápido e pouco saudável enquanto a atenção está capturada pelo dispositivo.
Existe um segundo prejuízo, este menos visível, porém igualmente danoso ao desenvolvimento cognitivo: o distanciamento da “atenção plena” durante as refeições. A especialista pondera que, ao comer diante de uma tela, o cérebro ignora os sinais de saciedade e negligencia a percepção sensorial de texturas e aromas, elementos fundamentais para que a criança construa uma relação consciente com o que coloca no prato.
A correria do dia a dia familiar também joga contra. Sem tempo ou energia para o preparo de alimentos frescos, muitos responsáveis recorrem ao caminho do menor esforço: itens carregados de açúcar, sal e gorduras trans. Contudo, Calia sugere que o jogo pode ser revertido com medidas estruturantes. A criação de “zonas livres” de dispositivos durante os horários das refeições é um primeiro passo necessário. Estabelecer horários rígidos para o lazer digital e incentivar a troca de aparelhos por atividades físicas ou leitura ajuda a quebrar a dependência tecnológica.
Promover a autonomia alimentar exige paciência e educação, ensinando os pequenos a identificar o que realmente nutre o organismo. Além das paredes de casa, as escolas ocupam um papel estratégico. A nutricionista reforça que o ambiente educacional deve ser um vetor de conscientização, transformando a rotina escolar em um espaço que defenda, na prática, a saúde das próximas gerações.







