Brasília (DF) – A menos de 30 dias do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro, o cenário político brasileiro vive um momento de desequilíbrio. A escalada de uma crise institucional, que transborda os limites do Supremo Tribunal Federal (STF) e envolve diversas esferas de poder, dominou o noticiário e as redes sociais. O resultado, segundo entidades da sociedade civil, é o esvaziamento das discussões fundamentais sobre o futuro do país e os projetos de governo dos candidatos.
Para Samira de Castro, presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o debate eleitoral foi comprometido pela centralidade que a crise no Judiciário assumiu no cotidiano dos brasileiros. A percepção é compartilhada por Francilene Garcia, presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que aponta uma lacuna perigosa na agenda pública. Ela critica o fato de o país parecer forçado a escolher entre monitorar a integridade das instituições ou discutir o desenvolvimento nacional, como se ambos não fossem pilares de um mesmo projeto de nação.
Embora reconheçam a gravidade das denúncias trazidas pela Operação Compliance Zero, iniciada pela Polícia Federal em novembro de 2025, os representantes das entidades defendem que a apuração de possíveis desvios envolvendo autoridades e o antigo Banco Master não deveria sufocar a apresentação de propostas para os cargos executivos e legislativos. Daniel Cara, coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, classifica este pleito como o mais relevante desde a promulgação da Constituição de 1988, destacando que os candidatos parecem desconectados das transformações produtivas e dos conflitos globais que o Brasil enfrenta.
No campo trabalhista, a frustração é evidente. Rita Serrano, presidenta do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), ressalta que temas vitais, como o fim da escala 6×1, a geração de empregos e a regulamentação do setor público, perderam tração parlamentar desde que a crise política escalou em agosto. O setor produtivo e as entidades sindicais, que buscavam avanços concretos no Congresso, agora se veem em um cenário de incertezas que paralisa a pauta social.
A crise climática também é citada como uma ausência notável. O secretário executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, alerta para a postura de diversos candidatos que, além de não incluírem a agenda ambiental como prioridade, negam a existência do problema, ignorando prejuízos econômicos e sociais causados por eventos extremos como as enchentes no Sul e a seca na Amazônia. O debate sobre minerais críticos, por outro lado, ganha contornos específicos na visão da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
Alcebias Constantino, coordenador executivo da Apib, reforça que a proteção de territórios é a pauta central para o movimento. Diante do distanciamento de grande parte dos candidatos, a organização optou por lançar 56 candidaturas próprias em diversas esferas para garantir que suas demandas, incluindo salvaguardas socioambientais, cheguem aos espaços de decisão. Para os povos indígenas, a instabilidade política é apenas mais um capítulo de uma luta que, conforme pontua o líder, segue constante independentemente das crises que ocupam, momentaneamente, o centro do palco nacional.












