Nova Deli, Índia – Líderes do Brics reunidos neste fim de semana em Nova Delhi, na Índia, sinalizaram uma postura de cautela diante das turbulências geopolíticas que atingem o Oriente Médio. Em uma declaração formal de 35 páginas, o grupo de 11 nações — que agora inclui Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Etiópia e Indonésia, além dos membros fundadores — expressou preocupação com a escalada das hostilidades, evitando, porém, nomear especificamente os envolvidos ou utilizar o termo guerra para descrever a crise regional iniciada em fevereiro.
O texto, intitulado Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade, foi desenhado para contornar atritos diplomáticos entre países que possuem interesses conflitantes. Entre os pontos de atenção, destaca-se o reflexo das tensões entre o Irã e nações alinhadas aos Estados Unidos, como Emirados Árabes e Arábia Saudita. No parágrafo 28 do documento, o bloco optou por um apelo genérico à máxima contenção e à abstenção de ações que possam agravar a instabilidade, uma estratégia comum para garantir a adesão unânime em um grupo que agora representa 39% da economia mundial e quase metade da população do planeta.
A cúpula contou com figuras centrais da política global, incluindo o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, os presidentes Xi Jinping, da China, Vladimir Putin, da Rússia, e Masoud Pezeshkian, do Irã. O Brasil foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enquanto os Emirados Árabes enviaram o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Sheikh Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan. Em pauta, a reforma do Conselho de Segurança da ONU ganhou destaque, com o bloco defendendo um órgão mais democrático e representativo para o mundo em desenvolvimento.
Neste quesito, China e Rússia reafirmaram o apoio às aspirações brasileiras e indianas para ocupar papéis de maior relevância dentro do Conselho de Segurança, embora o texto final tenha mantido a cautela ao evitar a menção explícita a assentos permanentes. A articulação diplomática ocorre em um momento em que o grupo busca consolidar sua influência sem, contudo, oficializar o desafio direto aos detentores do poder de veto atual, como Estados Unidos, Reino Unido e França.
Outro tema que dominou os debates foi a política de protecionismo comercial. Sem citar nominalmente os Estados Unidos ou o presidente Donald Trump, o Brics criticou duramente a adoção de tarifas unilaterais. O documento aponta que tais barreiras distorcem o fluxo de mercadorias e contrariam as diretrizes da Organização Mundial do Comércio. A postura reflete a preocupação de economias como Brasil, China e Índia, que têm sido afetadas por medidas tarifárias impostas desde o início de 2025.
Em relação às finanças globais, o bloco descartou, por ora, a criação de uma moeda única ou a substituição imediata do dólar. A prioridade, segundo o consenso, reside no desenvolvimento de mecanismos eficientes para pagamentos transfronteiriços utilizando moedas locais. Paralelamente, o grupo colocou o combate à desigualdade no centro da agenda, com a proposta liderada pelo Brasil e pela África do Sul para a criação de um painel internacional dedicado ao tema, reforçando que a erradicação da pobreza extrema é um requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável das nações.










