Nova Delhi, Índia – A escalada militar no Oriente Médio coloca a coesão do Brics à prova em Nova Delhi nos dias 12 e 13 de setembro. Com a anfitriã Índia no centro das articulações diplomáticas, o encontro de líderes precisa costurar um posicionamento comum enquanto dois de seus integrantes mais recentes, Irã e Emirados Árabes Unidos, vivem um confronto direto alimentado pela guerra travada por Estados Unidos e Israel contra Teerã.
O conflito, iniciado há mais de seis meses, desestabilizou rotas cruciais de navegação, provocou o fechamento virtual do Estreito de Ormuz e empurrou as cotações internacionais do barril de petróleo para além dos US$ 100. A crise atingiu em cheio as relações internas do bloco: após ser alvo de mísseis iranianos, o governo de Abu Dhabi suspendeu totalmente as trocas comerciais e os fluxos financeiros com a capital iraniana em agosto.
O impasse reflete as complexidades da recente ampliação do Brics. Criado inicialmente por Brasil, Rússia, Índia, China e posteriormente África do Sul, o grupo incorporou formalmente Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia em 2024 para ampliar o peso do Sul Global. No entanto, o ingresso de nações com rivalidades geopolíticas profundas já havia travado a divulgação de um comunicado conjunto na reunião de chanceleres realizada em maio.
Para a cúpula deste fim de semana, a presença de chefes de Estado reforça o peso político das negociações. O presidente chinês, Xi Jinping, desembarca na Índia pela primeira vez em sete anos. O evento conta ainda com o russo Vladimir Putin, o iraniano Masoud Pezeshkian, o sul-africano Cyril Ramaphosa, o egípcio Abdel Fattah al-Sisi, o indonésio Prabowo Subianto e o secretário-geral da ONU, António Guterres. A representação emiradense cabe ao príncipe herdeiro de Abu Dhabi, xeque Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, enquanto a Arábia Saudita — que mantém status indefinido em relação à adesão plena — enviou o chanceler Faisal bin Farhan Al Saud.
Moscou admitiu que as divergências entre Teerã e Abu Dhabi criam barreiras reais para a redação do documento final, mas analistas apontam precedentes favoráveis. Na recente reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, em Bishkek, líderes como Narendra Modi, Xi, Putin e Pezeshkian subscreveram um texto conjunto contra as sanções ocidentais e a ação armada contra o território iraniano, indicando que termos de compromisso continuam viáveis.
Além do xadrez regional, o avanço do protecionismo e a imposição de tarifas unilaterais pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos aceleram o interesse mútuo por alinhamentos pragmáticos entre os países emergentes. As conversas nos bastidores em Nova Delhi antecedem uma viagem de Xi aos Estados Unidos nas próximas semanas, abrindo margem para encontros bilaterais estratégicos em solo indiano antes de qualquer diálogo formal com Washington.







