São Paulo (SP) – O universo digital brasileiro enfrenta um cenário preocupante de insegurança. Segundo dados revelados no 17º Seminário de Proteção à Privacidade e aos Dados Pessoais, cerca de 45 milhões de usuários da internet com 16 anos ou mais no Brasil — o equivalente a 32% da população conectada — foram alvos de tentativas de golpe envolvendo seus dados pessoais. O estudo, conduzido pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), órgão do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), também revelou que 20% desses usuários confirmaram ter sofrido efetivamente algum tipo de crime virtual.
A investigação, realizada em dezembro de 2025 com 2,5 mil respondentes em todo o país, destaca que os criminosos utilizam múltiplos canais para abordar suas vítimas. Os aplicativos de mensagens lideram o ranking de incidência, sendo responsáveis por 84% das tentativas relatadas. Em seguida, aparecem as ligações telefônicas, com 79% dos casos, seguidas por sites ou aplicativos falsos, SMS, e-mail e redes sociais. Winston Oyadomari, um dos coordenadores do levantamento, aponta que a vulnerabilidade é acentuada quando o usuário utiliza apenas o smartphone, sugerindo que as limitações dos dispositivos móveis podem facilitar o sucesso de fraudes orquestradas por sites fraudulentos.
O impacto dessas investidas vai além do prejuízo financeiro direto. O coordenador enfatiza que o estresse e o abalo emocional afetam não apenas as vítimas, mas seus familiares. Além disso, o roubo de contas tornou-se uma preocupação central, especialmente quando golpistas obtêm acesso a e-mails vinculados a serviços governamentais, como o Gov.br. Esse bloqueio pode retirar do cidadão o acesso a direitos fundamentais, benefícios de assistência social e políticas públicas, criando uma camada adicional de exclusão digital e burocrática.
A escolaridade do usuário atua como um fator determinante no impacto dessas fraudes. Embora pessoas com menor nível de instrução estejam expostas às mesmas investidas que o restante da população, a pesquisa indica que, para este grupo, as consequências costumam ser mais severas. Oyadomari reforça que o debate sobre a segurança não deve se restringir apenas à proteção de dados, mas precisa evoluir para a promoção de habilidades digitais. A alfabetização tecnológica é apresentada como um pilar indispensável para garantir que as pessoas consigam navegar no ambiente virtual com maior resiliência e capacidade de identificar riscos.
A ascensão das ferramentas de inteligência artificial generativa adicionou um novo capítulo a essa preocupação. O estudo mostrou que, embora o uso dessas plataformas seja majoritariamente acadêmico ou profissional, existe uma parcela expressiva de brasileiros que compartilha com a IA dados sensíveis, como informações de saúde, sentimentos, emoções e detalhes íntimos da vida pessoal. A maioria dos usuários — cerca de 66% — demonstra preocupação com a forma como as empresas armazenam essas informações, mas o receio não tem inibido o uso das ferramentas. Existe uma contradição latente: os usuários reconhecem os benefícios das IAs, mas sentem-se desamparados pela falta de transparência sobre o destino de suas informações.
Enquanto a população tenta navegar por esses riscos, o setor empresarial e o poder público ainda buscam o nível ideal de maturidade em governança digital. Entre as empresas pesquisadas, 69% afirmam armazenar dados pessoais de clientes, com foco em informações biométricas. No entanto, apenas 16% dessas organizações nomearam formalmente um encarregado de proteção de dados, o chamado DPO. Por outro lado, órgãos públicos apresentaram avanços significativos, especialmente na implementação de treinamentos em segurança da informação, que dobraram na rede pública entre 2023 e 2025.
O cenário, porém, continua desafiador para a gestão escolar. Muitos gestores ainda hesitam em adotar tecnologias educacionais devido ao receio de vazamentos de dados de alunos ou pela opacidade nos termos de uso das plataformas digitais. Como pontuou Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil, a responsabilidade pela segurança não deve recair exclusivamente sobre os ombros do cidadão. É imperativo que tanto organizações públicas quanto privadas adotem estruturas de transparência rigorosas, garantindo que o direito à privacidade seja preservado como uma dimensão fundamental da cidadania na era digital.











