Xangai, China – A disputa global pelo controle da inteligência artificial ganhou um novo capítulo geográfico e político. Ao assinar o documento de fundação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico) em Xangai, o Brasil se colocou formalmente no centro de um embate tecnológico entre superpotências. A iniciativa chinesa, que reúne 29 países, propõe um modelo de governança global baseado em código aberto, permitindo que empresas e governos de qualquer porte se apropriem da tecnologia.
Esse modelo se choca diretamente com a estratégia de Washington. Batizada de Pax Silica, a visão norte-americana foca em uma rede de parceiros comerciais selecionados pela Casa Branca para centralizar as cadeias de suprimentos mais sensíveis, de semicondutores e minerais críticos à própria energia necessária para abastecer os supercomputadores. É um cabo de guerra invisível, onde o Brasil tenta não virar apenas espectador.
A armadilha da infraestrutura própria
A entrada na Waico surge como uma janela para a soberania digital brasileira, mas o caminho exige resolver gargalos domésticos profundos. A avaliação é de analistas do setor, que apontam o tamanho do país e a robustez de suas universidades públicas como vantagens estratégicas raras. O grande obstáculo, contudo, é a falta de infraestrutura física de processamento e armazenamento.
O sociólogo e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Sérgio Amadeu da Silveira, ilustra esse gargalo com uma conta simples: se um laboratório universitário recebesse hoje R$ 10 milhões para pesquisa em IA, metade desse montante seria imediatamente consumida por contratos de nuvem com gigantes estrangeiras como a Amazon ou a chinesa Huawei. Sem supercomputadores públicos e datacenters nacionais, os recursos que deveriam gerar conhecimento local acabam financiando corporações externas, o que perpetua a dependência tecnológica.
Entre a abertura de Xangai e o pragmatismo americano
O governo brasileiro vem repetindo que não pretende se alinhar cegamente a nenhum dos lados. A diplomacia nacional defende a manutenção de canais abertos tanto com o bloco chinês quanto com o ocidental. Essa postura flexível é vista por especialistas como um trunfo geopolítico valioso. Ettore Arpini, fundador da Plures, destaca que a inteligência artificial não deve ser tratada como um mero setor regulatório, mas sim como uma alavanca histórica de desenvolvimento socioeconômico.
Esse posicionamento ecoa as cobranças do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em fóruns internacionais. O mandatário tem insistido na necessidade de uma governança intergovernamental estruturada pela ONU, argumentando que a tecnologia não pode ficar concentrada nas mãos de poucos países ou de empresários bilionários. O próprio secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou o coro em Xangai ao alertar que o futuro da humanidade precisa ser decidido de forma coletiva, garantindo assento na mesa para todas as nações.
O contra-ataque ideológico da Pax Silica
Do outro lado da mesa, os Estados Unidos enxergam a descentralização proposta pela ONU com ceticismo e hostilidade. Jacob Helberg, subsecretário de Estado para Assuntos Econômicos dos EUA na gestão de Donald Trump, criticou abertamente o conceito de soberania digital nacional. Para ele, a ideia de que cada país deve possuir e controlar seus próprios modelos e servidores é um erro que atrasa a inovação.
Segundo o representante norte-americano, os países obteriam melhores resultados ao pegar carona nas estruturas prontas desenvolvidas pelo Vale do Silício. Helberg defende que a busca por autonomia local resultará apenas em uma “mediocridade sincronizada”, na qual o resto do mundo gastará energia recriando tecnologias obsoletas enquanto as empresas dos EUA continuam definindo as fronteiras do futuro.











