Vitória (ES) – A alegria de descobrir uma gravidez muito desejada durou menos de três dias para a terapeuta ocupacional Daiana Nascimento. O que deveria ser o início de uma nova fase familiar transformou-se, de forma abrupta, em um diagnóstico de mola gestacional — uma anomalia que, em poucas semanas, evoluiu para um câncer de placenta. A velocidade dos acontecimentos atropelou os planos de Daiana, mas seu caso ilustra uma realidade médica pouco conhecida, embora recorrente no Brasil.
Cientificamente chamada de doença trofoblástica gestacional, a mola decorre de uma falha no momento da fertilização. Na variação incompleta, o óvulo é fecundado por dois espermatozoides ou por um com carga genética duplicada, gerando um feto com graves malformações e uma placenta doente. Na mola completa, um óvulo sem material genético é fertilizado, resultando apenas no crescimento de uma massa placentária desordenada, sem qualquer embrião. Em ambos os cenários, a interrupção da gravidez é inevitável para evitar hemorragias e descompassos na tireoide ou na pressão arterial.
O perigo mais agudo surge quando as células dessa placenta anormal invadem a musculatura uterina. O avanço para o câncer de placenta acomete cerca de 5% das mulheres com diagnóstico de mola parcial, mas essa taxa sobe para 20% — uma em cada cinco pacientes — nos casos de mola completa. Em quadros mais graves, o tumor pode sofrer metástase, atingindo comumente os pulmões.
A importância do atendimento especializado
No Brasil, a incidência da enfermidade é notavelmente superior à de países desenvolvidos. Estima-se que uma em cada 200 a 400 gestações no país resulte em mola, enquanto nos Estados Unidos a proporção é de uma para mil, e na Inglaterra de uma para duas mil. As razões para essa disparidade geográfica ainda são investigadas, envolvendo possíveis fatores genéticos, imunológicos e nutricionais.
Para o obstetra Antônio Braga, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o tratamento adequado exige estruturas de ponta. Braga coordena o Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da UFRJ, considerado o terceiro principal polo global de pesquisa e assistência à patologia. O especialista alerta que pacientes monitoradas fora de centros de referência enfrentam um risco de morte de 10 a 20 vezes maior.
Diferente de quase todos os outros tipos de câncer, o diagnóstico do tumor de placenta não depende de biópsias, mas sim do comportamento do HCG, o hormônio da gravidez. Se após o esvaziamento do útero as taxas hormonais não entrarem em declínio contínuo, fica configurada a persistência tumoral, combatida com quimioterapia. O ambulatório da UFRJ acolhe cerca de 80 mulheres semanalmente pelo Sistema Único de Saúde, sendo que 30% delas possuem convênios privados de saúde, mas optam pelo acolhimento público devido à expertise da equipe.
Caminhos para a recuperação
Para mulheres que já completaram suas famílias ou estão em faixas etárias mais avançadas, a retirada do útero surge como alternativa preventiva. Foi a decisão de Mônica Rosa do Amaral Pelizari. Ela recebeu o diagnóstico aos 45 anos, após um aborto espontâneo. O susto inicial deu lugar a um tratamento conduzido com leveza ao lado de suas irmãs, que a acompanhavam nas sessões com lenços coloridos. Hoje curada, Mônica mantém avaliações anuais na unidade.
A superação também envolve enfrentar o luto e os impactos logísticos. Moradora de São Pedro da Aldeia, Daiana precisou interromper sua rotina profissional e encarar viagens cansativas de 141 quilômetros até o Rio de Janeiro para realizar as sessões de quimioterapia. Com o apoio do marido, Lucas Felipe, e o suporte de transporte público gratuito garantido por lei, ela concluiu o tratamento e aguarda a confirmação definitiva dos exames para, em breve, retomar os planos de engravidar.












