São Paulo (SP) – O 9 de julho é, para o calendário paulista, um marco de resiliência. Desde 1997, a data é feriado estadual, celebrando o início do movimento armado contra o governo central de Getúlio Vargas, em 1932. Mas, para além da folguinha na rotina, o que resta de fato dessa mobilização que durou apenas três meses? A resposta reside menos nos campos de batalha e mais na construção paciente de uma narrativa que precisava transformar uma capitulação em vitória moral.
Tudo começou com o trauma de 1929. A quebra da Bolsa de Nova York não destruiu apenas finanças; ela desmoronou o alicerce do poder paulista, que sustentava a política do Café com Leite. Com a ascensão de Vargas ao poder, o descontentamento das elites de São Paulo — e de parte considerável da classe média — encontrou terreno fértil. O governo provisório, visto como uma afronta por quem detinha o controle do estado, começou a nomear interventores de fora, gerando uma resistência que misturava conservadorismo, medo do avanço de leis trabalhistas e um ufanismo regional crescente.
A tensão atingiu um ponto de não retorno na noite de 23 de maio de 1932. Após um tumulto na Faculdade de Direito, manifestantes que tentavam cercar a sede de um partido aliado a Vargas foram alvejados por uma guarnição federal. Quatro jovens — Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo — perderam a vida, dando origem à sigla MMDC. A partir daquela morte, o acrônimo se tornou o combustível emocional que faltava para transformar o descontentamento em uma guerra civil declarada.
Curiosamente, o movimento de 1932 não foi uma revolução espontânea. Historicamente, ele se alinhava a um discurso legalista, pintando São Paulo como o guardião abnegado da Constituição contra o arbítrio varguista. Arão Davi Oliveira, professor da Uniderp, observa que essa elite soube capitalizar sobre o isolamento que sentia. Ao vender a ideia de uma luta pela legalidade, São Paulo forjou um mito que, embora tenha sido derrotado militarmente em 2 de outubro daquele mesmo ano, permaneceu vivo como ferramenta política.
Francisco Quartim de Moraes, da USP, vai além e questiona essa versão oficial. Em suas análises, o levante foi, na verdade, uma tentativa de frear transformações sociais que incluíam o voto feminino e direitos trabalhistas. O autor de A História Invertida aponta que a construção da memória paulista sobre o conflito flertou com correntes ideológicas das mais diversas, incluindo defensores do autoritarismo e grupos que viam com simpatia o nazismo nascente. É, em certa medida, um paradoxo: lutava-se por uma democracia liberal, mas sob o comando de oligarquias que temiam a perda de privilégios tradicionais.
Por que oficializar esse feriado apenas em 1997, sob a gestão de Mário Covas? A resposta pode estar na necessidade de reafirmar a relevância de São Paulo em um Brasil que, à época, vivia as transformações da abertura econômica e política. Leandro Torelli, da FESPSP, sugere que o feriado funciona como um espelho: ele reflete o desejo da elite paulista de se colocar como o contraponto natural ao que chamam de Era Vargas. Enterrar o varguismo, ao menos simbolicamente, parecia ser uma meta daquele período.
O desafio para as novas gerações, no entanto, permanece no ambiente escolar. É lá, no chamado “chão da escola”, que a história deixa de ser um bloco monolítico de heroísmo e passa a ser debatida. O feriado, impregnado de uma mítica regional que é reavivada ano após ano, acaba funcionando como um elemento identitário poderoso, mesmo que a realidade histórica seja muito mais complexa e cheia de contradições.
Afirmar que a Revolução de 1932 foi apenas uma disputa de poder entre oligarquias é reduzir demais o papel das milhares de pessoas que, de fato, pegaram em armas. Por outro lado, tratá-la como um evento imaculado pela liberdade ignora as sombras que o acompanharam. O 9 de julho sobrevive como um feriado que, mais do que celebrar um fato passado, expõe a forma como São Paulo enxerga a si mesma: como um estado que, na sua própria narrativa, insiste em vencer, mesmo quando o resultado das urnas ou dos combates diz o contrário.













