Havana, Cuba – O governo cubano iniciou uma movimentação decisiva para alterar os alicerces do seu modelo econômico e social. Em uma reunião extraordinária convocada para esta quarta-feira (17), o Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, sob orientação do Birô Político, avalia um pacote composto por mais de 20 medidas desenhadas para injetar dinamismo na ilha e combater as dificuldades geradas por quase sete décadas de bloqueio dos Estados Unidos.
A estratégia, desenhada pelo presidente Miguel Díaz-Canel, busca um equilíbrio entre a manutenção do ideário de justiça social e a necessidade urgente de gerar riqueza. Citando abertamente o sucesso do modelo chinês e vietnamita, o líder cubano defende que é hora de resolver contradições históricas que travam a produção local. A ideia central é retirar o Estado do comando operacional de tudo, permitindo que setores econômicos funcionem com a fluidez que o mercado exige.
Descentralização e autonomia
O desenho das reformas aponta para um esvaziamento do poder centralizado em Havana. Municípios e províncias devem ganhar autonomia para exportar, importar e buscar investimentos estrangeiros sem precisar de um carimbo prévio da capital. A mesma lógica se aplica às empresas estatais, que passarão a definir seus próprios salários, políticas internas e parcerias comerciais. O orçamento público, segundo a proposta, não pode mais ser utilizado para sustentar a ineficiência dessas companhias.
Outro pilar relevante da proposta é a reestruturação da administração pública. Díaz-Canel sugere uma redução drástica no número de ministérios e cargos administrativos, justificando a medida como uma forma de cortar gastos desnecessários que podem ser redirecionados para o fortalecimento da rede de proteção social. O sistema de subsídios, hoje generalizado, deve sofrer uma mudança sensível: o foco deixará de ser o produto para priorizar o cidadão, com auxílio direto aos mais vulneráveis.
Foco em produtividade e mercado
Setores como turismo, agricultura e comércio exterior são o alvo primário das mudanças. Na agricultura, o objetivo é reduzir a ociosidade da terra, facilitando o acesso dos produtores ao mercado cambial e aos insumos necessários para o cultivo. Paralelamente, o governo sinaliza uma abertura maior para o setor não estatal, expandindo as atividades permitidas a empresas privadas e facilitando a entrada de novos acionistas em negócios locais, desde que dentro de um novo marco legal que garanta segurança jurídica aos investidores.
O peso do isolamento
A urgência dessas reformas não é casual. O cenário econômico cubano enfrenta um agravamento severo desde o final de 2025, quando novas restrições navais afetaram drasticamente a importação de petróleo — que antes chegava principalmente da Venezuela. Em janeiro de 2026, a pressão escalou com ameaças de sanções dos EUA a qualquer entidade que fornecesse combustível à ilha, resultando em um trimestre de escassez crítica.
Hoje, o impacto dessas medidas reflete-se diretamente no cotidiano da população de 11 milhões de habitantes: a escassez de combustíveis impulsiona apagões, encarece itens básicos e dificulta o transporte público. Com a saída de empresas hoteleiras e mineradoras pressionadas pelas sanções de Washington, o governo aposta que a descentralização e a liberalização econômica sejam os únicos caminhos viáveis para evitar um colapso completo do sistema.









