Vitória (ES) – Em um panorama de complexas tensões no Oriente Médio, os Acordos de Abraão — uma costura diplomática orquestrada por Donald Trump em seu primeiro mandato na Casa Branca — despontam hoje como um fator de alerta, capaz de consolidar o isolamento palestino e expandir, perigosamente, o campo de manobra para Israel anexar partes da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Assim veem diversos analistas da região, cujas avaliações pintam um futuro incerto.
Formalizados entre 2020 e 2021 por Marrocos, Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein e Sudão, esses pactos visavam a “normalização” das relações árabes com Israel. A lista de signatários, ainda em aberto, conta com a promessa de adesão do Cazaquistão para 2025. Agora, com conversas com o Irã em andamento, Trump tem intensificado a pressão sobre outros países — como Arábia Saudita, Catar, Paquistão, Turquia, Egito e Jordânia — condicionando negociações de paz com Teerã a uma assinatura imediata.
“Deveria começar com a assinatura imediata da Arábia Saudita e do Catar, e todos os outros deveriam seguir o exemplo. Se não o fizerem, não deveriam fazer parte deste Acordo [com o Irã], pois isso demonstra má intenção”, afirmou Trump publicamente, delineando seu ponto de vista.
Para Rashmi Singh, professora de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), essa iniciativa é lida pelos palestinos como uma traição. Os acordos redefiniram a diplomacia do Oriente Médio, tentando convencer Estados árabes sunitas a dissociar a normalização das relações com Israel da questão palestina, um antigo consenso que ditava que a paz com Israel só viria após uma resolução para o conflito palestino.
Mohammed Nadir, professor de relações internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), corrobora: vê nos acordos uma consolidação da subordinação árabe à política de Israel e dos EUA. “O objetivo é livrar Israel do isolamento em que se encontra após os crimes perpetrados contra os palestinos de Gaza”, pontua, antevendo consequências desastrosas para os palestinos, que ficariam “à sua sorte sem nenhum apoio árabe, se ainda podemos falar de apoio árabe”. O Paquistão, entre os visados por Trump, já rejeitou a proposta, declarando não ter obrigação de acatá-la.
Um fato significativo nesse tabuleiro: o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, avaliam analistas, buscou também paralisar as tratativas entre países árabes e Israel, em particular com a Arábia Saudita.
A professora Singh acrescenta que, ao assinar os acordos, nações árabes priorizaram interesses econômicos e preocupações de segurança em relação ao Irã, relegando a um segundo plano a criação de um Estado palestino. Os acordos, de fato, teriam incentivado a escalada da violência israelense contra os palestinos, de acordo com ela.
“Se Trump for bem-sucedido, a consequência mais óbvia será a catástrofe para qualquer futuro Estado palestino e dará carta branca a Israel para continuar sua brutalidade, ocupação militar, regime de apartheid, bem como a limpeza étnica dos palestinos e o roubo de suas terras”, prognostica a professora.
Trump, por sua vez, defende que a adesão aos acordos traz um “boom econômico”. “Os acordos de Abraão provaram ser, para os países envolvidos [Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos, Sudão e Cazaquistão], um boom financeiro, econômico e social, mesmo durante este período de conflito e guerra”, declarou o ex-presidente.
A visão de Singh para a reeditada pressão de Trump mira em um objetivo maior: manter a hegemonia de Israel no Oriente Médio e, por consequência, a presença e influência dos EUA na região. Isso se dá em um contexto onde “as relações de poder foram drasticamente alteradas por mais um fracasso desastroso dos EUA, que deixou o Irã em uma posição muito mais forte do que antes”, conforme sua análise.
Ora, e o presidente Donald Trump? O professor Mohammed Nadir o descreve como um adepto do “sionismo”, a ideologia por trás do Estado de Israel. “Ele é adepto das ideias messiânicas dos extremistas israelenses que acreditam na grande Israel sem sua população originária, isto é, os palestinos”, argumenta Nadir, que vê nos ataques contínuos — em Gaza, na Cisjordânia, nos colonatos, às terras agrícolas — um plano maior para eternizar a Nakba, iniciada em 1948 com a fundação de Israel.
Nakba, termo árabe para “catástrofe”, recorda a expulsão de cerca de 750 mil palestinos e a destruição de quinhentas vilas, que lançou as bases do drama dos refugiados. Recentemente, a expansão de assentamentos ilegais na Cisjordânia e ataques de colonos israelenses têm sido amplamente denunciados por organizações de direitos humanos. A União Europeia, em resposta, aprovou sanções contra colonos. Berlim, aliada importante de Israel, também criticou o anúncio do governo de Benjamin Netanyahu de expandir o controle sobre a Faixa de Gaza para 70% — acima dos atuais 60%. O próprio governo israelense já defendeu a emigração de palestinos de Gaza e a anexação da Cisjordânia, recusando a criação de um Estado palestino independente nas fronteiras de 1967.











