Vila Velha (ES) – O conceito de carbono azul surge como uma peça-chave na estratégia global para frear o aquecimento do planeta. Ao retirar dióxido de carbono da atmosfera, ambientes como manguezais, pântanos de água salgada e pradarias atuam como grandes depósitos naturais de gases de efeito estufa. O papel desses ecossistemas ganhou destaque mundial nesta segunda-feira (8), data que marca o Dia Mundial dos Oceanos.
Dados técnicos indicam que o oceano absorve cerca de 30% das emissões globais de CO₂. Além disso, o mar é responsável por produzir mais da metade do oxigênio que circula na atmosfera. Embora a Amazônia detenha o título de “pulmão do mundo”, a função exercida pela vida marinha é equivalente na regulação climática do planeta.
O Brasil ocupa uma posição privilegiada nesse cenário. O país detém o maior sistema contínuo de manguezais do planeta, concentrado na costa amazônica. Apesar desse potencial, o ambiente marinho ainda enfrenta um hiato de visibilidade. Enquanto biomas como Cerrado e Mata Atlântica mobilizam recursos e atenção política, o Sistema Marinho-Costeiro brasileiro — que compreende 5,7 milhões de quilômetros quadrados e abriga metade da população nacional — é tratado por vezes como um vazio geográfico.
Essa invisibilidade é um risco real. Quando ecossistemas como mangues são degradados, ocorre o efeito oposto ao desejado: o carbono acumulado por décadas ou séculos é liberado de volta para a atmosfera. Além da perda climática, a destruição desses locais atinge diretamente o sustento de cerca de 1,7 milhão de pescadores artesanais brasileiros que dependem da saúde biológica das águas.
A proteção dessas áreas vai muito além dos números sobre emissões. Organizações focadas em conservação defendem que o sucesso das iniciativas de carbono azul exige, fundamentalmente, o respeito aos direitos territoriais de comunidades tradicionais. Projetos que ignoram a repartição justa de benefícios ou a autonomia local tendem a falhar no longo prazo. O foco deve integrar a restauração de corais, a criação de áreas marinhas protegidas e a segurança alimentar das populações que habitam o litoral.
A conservação do mar, portanto, não se restringe à ecologia pura. Trata-se de assegurar uma barreira natural contra a erosão e eventos climáticos extremos, ao mesmo tempo em que se garante a sobrevivência de tradições e economias locais. O desafio para os próximos anos reside em transformar o potencial estratégico da costa brasileira em políticas públicas robustas, capazes de unir o combate à crise climática com o desenvolvimento social dos povos do mar.












