Brasília (DF) – A Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, completa seis meses nesta segunda-feira, 18 de novembro, consolidando-se como um divisor de águas no combate aos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Desde as primeiras investidas, deflagradas até meados de maio, o trabalho investigativo desnudou um esquema que, na avaliação das autoridades, pode representar a maior fraude financeira da história do país, com prejuízos estimados na casa das dezenas de bilhões de dólares.
No epicentro da apuração está Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. A investigação mapeou uma rede de influências que conectava o banqueiro a figuras de peso na política, servidores de escalões superiores e até agentes da própria corporação policial. Entre os nomes que surgiram nos autos, figuram diretores do Banco Central, órgão que deveria atuar como o principal fiscalizador do setor bancário, levantando questionamentos sobre a profundidade da corrupção institucional.
O início e a teia de crimes
Tudo começou nos primeiros meses de 2024, após um pedido formal do Ministério Público Federal que deu início à análise minuciosa das operações do grupo. A partir daí, o Poder Judiciário, com o Supremo Tribunal Federal na linha de frente, autorizou uma série de medidas drásticas. Foram decretadas 21 prisões, entre temporárias e preventivas, além de 116 mandados de busca e apreensão. O bloqueio e sequestro de bens atingiram a cifra impressionante de R$ 27,71 bilhões, espalhados por sete unidades da federação, incluindo Bahia, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e o Distrito Federal.
A primeira fase, deflagrada em 18 de novembro do ano passado, focou na fabricação de carteiras de crédito sem lastro. Vorcaro, aos 42 anos, foi preso junto a outros seis investigados, como o ex-CEO do Banco Master, Augusto Ferreira Lima. Naquele momento, descobriu-se que ativos podres haviam sido repassados ao Banco de Brasília, o BRB. Após uma fiscalização do Banco Central, esses papéis foram substituídos por outros ativos de qualidade duvidosa, sem qualquer critério técnico. O impacto foi imediato: o Banco Central ordenou o afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e de seu diretor financeiro, Dario Oswaldo Garcia.
O colapso das instituições
A ofensiva contra o grupo ocorreu em um momento crítico, logo após a Fictor Holding Financeira manifestar interesse em adquirir o Master. Meses antes, o próprio BRB tentara comprar o banco por cerca de R$ 2 bilhões, negócio que foi vetado pelo Banco Central em setembro. Com o avançar da investigação, o BC oficializou a liquidação extrajudicial de braços importantes do conglomerado, como o Banco Master de Investimento, a Letsbank, a corretora de câmbio e a Will Financeira. O Fundo Garantidor de Créditos precisou desembolsar aproximadamente R$ 49,5 bilhões para ressarcir os clientes lesados, sublinhando o tamanho do rombo deixado.
A segunda fase, em janeiro, aprofundou as buscas por provas de lavagem de dinheiro. Com autorização do ministro Dias Toffoli, mais de R$ 5,7 bilhões foram bloqueados. O pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, chegou a ser detido no aeroporto enquanto tentava embarcar para os Emirados Árabes. Outros nomes do setor financeiro, como Nelson Tanure e o ex-gestor da Reag Investimentos, João Carlos Mansur, também entraram no radar das autoridades como alvos de busca.
A milícia particular e o submundo
A terceira etapa, em 4 de março, revelou um lado sombrio do banqueiro. Após ser brevemente solto, Vorcaro retornou à prisão ao se descobrir que ele mantinha uma milícia particular para coagir desafetos. Mensagens encontradas em seu celular detalhavam planos de simular assaltos contra jornalistas e promover ataques violentos contra ex-funcionários. O grupo, chamado internamente de A Turma, era liderado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário. Detido em Belo Horizonte, Mourão morreu na cela após uma tentativa de suicídio.
A quarta fase, em abril, focou na corrupção de agentes públicos, prendendo o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e o advogado Daniel Monteiro. A PF sustenta que houve um acerto de R$ 146,5 milhões em propinas, com pelo menos R$ 74 milhões efetivamente pagos através de imóveis. Já a quinta fase, em maio, atingiu o senador Ciro Nogueira. O parlamentar é suspeito de atuar politicamente para beneficiar o Master, recebendo pagamentos mensais de até R$ 500 mil. A chamada Emenda Master, que tentava elevar a garantia do FGC para R$ 1 milhão, teria sido redigida por assessores do próprio banco.
Desdobramentos e a política
O caso ganhou novos contornos com a divulgação de áudios em que o senador Flávio Bolsonaro pede recursos ao banqueiro para financiar o filme Dark Horse, sobre a trajetória de seu pai. Embora o parlamentar confirme a veracidade das gravações, ele nega irregularidades, afirmando que o dinheiro foi destinado exclusivamente à produção cinematográfica. O banqueiro teria se comprometido com R$ 134 milhões para o projeto, liberando R$ 61 milhões, fato que gerou pedidos de investigação parlamentar.
A sexta fase, ocorrida em 14 de maio, marcou a prisão de Victor Lima Sedlmaier em Dubai, em operação com a Interpol, e do pai de Vorcaro, Henrique, apontado como gestor da milícia A Turma. Anderson da Silva Lima, policial federal em atividade, também foi preso sob suspeita de vazar dados sigilosos. O caso segue sob intensa vigilância, evidenciando como o poder financeiro, quando desprovido de ética, pode corroer as estruturas do Estado e desafiar a segurança jurídica do país, conforme apurado pela equipe do Feed Editoria.












