Castanhal (PA) – O ciclo da cheia dos rios amazônicos dita o ritmo da vida nas várzeas e, há décadas, define também a rotina dos agricultores que extraem a fibra da malva. Tradicionalmente reservada para a confecção de sacarias, cordas e estofamentos — e recentemente alçada ao glamour do tapete vermelho do Oscar no vestido da atriz Alice Carvalho —, a planta nativa ganhará um fôlego inédito. Um robusto projeto de estruturação produtiva acaba de ser viabilizado com financiamento da Finep, braço de inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
A força-tarefa é encabeçada pela Companhia Têxtil de Castanhal (CTC), veterana de 40 anos no Pará, que divide agora a responsabilidade técnica com três instituições científicas e quatro empresas privadas. Entre os parceiros de peso figuram a Embrapa, a Universidade Federal da Amazônia, o Centro de Bionegócios da Amazônia e firmas como Bioverse, Supernova, MGK Equipamentos e LABB41. O orçamento total da empreitada soma R$ 25,7 milhões, sendo que a Finep injetará R$ 15,2 milhões sob a forma de subvenção econômica.
O problema central a ser combatido é a desassistência operacional. Hoje, desde o plantio nos solos férteis das margens dos rios até o beneficiamento das fibras, tudo é feito de modo quase artesanal. Os ribeirinhos cortam a planta manualmente, formam feixes, deixam-nos de molho por cerca de dez dias para o amolecimento e, só então, colocam as fibras para secar em varais rudimentares. Sem prensagem, armazenamento adequado ou logística de transporte, o prejuízo espreita em todas as etapas da cadeia, tornando o produto final escasso e de valor limitado no mercado.
A solução proposta pela CTC e seus aliados não é apenas sobre o campo, mas sobre engenharia e dados. O cronograma prevê desde o aprimoramento genético das sementes e o design de máquinas dedicadas à colheita e extração da fibra, até a implementação de infraestrutura digital para gerir os cultivos. O plano ainda desenha a criação de negócios comunitários que sirvam como modelo de replicação regional. A ideia é transformar a malva de uma matéria-prima rústica em um material nobre, elevando o patamar do setor têxtil local.
Para Rodrigo Secioso, superintendente na Finep, o gargalo da falta de tecnificação é o primeiro alvo. O objetivo é claro: dignificar o trabalho na base e ampliar o alcance comercial da fibra para além das aplicações convencionais. O foco do investimento público, que ocorre por meio do edital Finep Amazônia voltado à bioeconomia, é justamente mitigar o risco intrínseco de qualquer processo de inovação disruptiva.
Elias Ramos, diretor de Inovação da entidade financiadora, define o aporte como um passo necessário para viabilizar projetos com alma brasileira. Para as comunidades ribeirinhas, que vivem o tempo das águas, a aposta pode representar a diferença entre a sobrevivência precária e o acesso a um mercado têxtil que começa a enxergar, finalmente, o valor estratégico escondido nas fibras amazônicas.











