Belém (PA) – O ataque cometido por estudantes contra um homem em situação de rua, ocorrido em Belém neste ano, é apenas a ponta visível de uma realidade brutal. Enquanto as câmeras de celulares flagraram descargas elétricas usadas como instrumento de tortura, milhares de outras vítimas enfrentam o anonimato diário de uma violência que parece ter se tornado invisível para o restante da sociedade.
Entre 2014 e 2023, o Brasil contabilizou oficialmente 150 mil casos de agressão contra quem vive nas calçadas. O número, no entanto, é modesto diante da sombra da subnotificação: estima-se que sete em cada dez pessoas agredidas nunca busquem ajuda institucional. O medo, a desconfiança nas autoridades e a humilhação acumulada funcionam como barreiras intransponíveis, tornando os registros oficiais apenas um recorte parcial de uma tragédia coletiva.
Os dados, extraídos de um estudo abrangente que cruzou registros do Sistema Único de Saúde com denúncias do Disque 100, desenham um perfil claro de quem está sob mira. Homens negros e jovens entre 15 e 49 anos formam a parcela mais atingida. No entanto, o peso da violência é sentida de forma mais letal entre mulheres e pessoas trans, que enfrentam riscos agudos de morte ou traumas físicos permanentes.
O ambiente urbano, na teoria de domínio público, tornou-se o maior reduto do medo. Cerca de 70% das ocorrências se dão ao relento. E não se trata apenas de agressão física, que domina o topo das estatísticas com 65% dos casos. A negligência, o abandono e o assédio psicológico por parte do Poder Público também figuram como componentes fundamentais do drama. Em São Paulo, relatos apontam que a rotina inclui desde expulsões com jatos de água até a perda sistemática de pertences pessoais durante ações de zeladoria.
O pesquisador André Luiz Freitas Dias observa que estamos diante de um ciclo contínuo. Muitas das vítimas, após receberem atendimento de emergência, são devolvidas exatamente à mesma situação de vulnerabilidade que facilitou o ataque. O que se desenha é um quadro de aporofobia, onde o pobre passa a ser enxergado como um alvo legítimo. Robson César Correia de Mendonça, líder do Movimento Estadual da População em Situação de Rua em São Paulo, define essa cultura de maneira seca: ser pobre e negro no Brasil é, frequentemente, o suficiente para alguém ser visto e tratado como um criminoso.
O aumento nos indicadores de denúncias entre 2020 e 2023 é alarmante, saltando de 12,5 mil para 45,8 mil registros em apenas três anos. O fenômeno, antes concentrado nos grandes centros, migra agora para municípios médios no interior, mostrando que a exclusão não respeita limites geográficos. Diante disso, especialistas reforçam que soluções meramente policiais falharão. A interrupção deste rastro depende de uma teia de proteção real, que una moradia, trabalho e a eliminação da barreira que impede, hoje, o cidadão de rua de se sentir parte da própria cidade.










