São Paulo (SP) – Um dente de tiranossauro, um fragmento de carvão com 350 milhões de anos e um ovo fossilizado bastaram para prender a atenção das crianças durante a Feira do Livro 2026, realizada no Pacaembu. O material foi apresentado pelo paleontólogo Luiz Eduardo Anelli na atividade História do Planeta Terra, iniciativa que traduz décadas de investigação acadêmica para o vocabulário jovem. O objetivo, por mais ambicioso que pareça, é simples: ensinar os mais novos a olhar para o chão e entender a linhagem de um mundo que nos antecedeu.
Professor do Instituto de Geociência da Universidade de São Paulo há três décadas, Anelli notou, ao longo dos anos, uma lacuna na literatura dedicada ao público brasileiro. Ele percebeu que faltavam obras que explorassem a pré-história local. De suas mãos, já saíram mais de 30 títulos voltados à compreensão da evolução global e das espécies extintas, incluindo o premiado O Brasil dos Dinossauros, vencedor do Jabuti em 2018. O foco atual, contudo, vai além do simples entretenimento, abraçando uma necessidade de fundamentação escolar e até de preparação para o vestibular.
A pergunta que move o professor é direta: como podemos cuidar de um planeta que não conhecemos? A resposta, para ele, está trancada nos fósseis. O paleontólogo defende que nossa geografia, a divisão dos continentes e o surgimento das flores e mamíferos ocorreram sob o domínio dessas criaturas.
O tempo geológico impõe uma perspectiva humilde sobre a nossa existência. Enquanto a Terra soma 4,54 bilhões de anos, os dinossauros habitaram esse cenário por 170 milhões de anos, entre o surgimento, há 230 milhões de anos, e a extinção, 66 milhões de anos atrás. Anelli lembra que, quando esses animais caminhavam pelo globo, a disposição dos mares e terras era totalmente diversa — partimos de um supercontinente para o atual mapa de seis continentes e cinco oceanos.
Para além das salas de aula, Anelli encara seu papel com um senso de urgência, quase como uma resistência. Em tempos de negacionismo, ele acredita que a ciência precisa de defensores vorazes. É a divulgação científica que explicita as engrenagens por trás das facilidades da vida moderna, desde o funcionamento de um medicamento até a tecnologia aeronáutica. Em obras como o Almanaque da Terra e da Vida, o autor sintetiza conceitos complexos — rochas, fósseis e seres vivos — na esperança de que a próxima geração cresça menos alheia à própria história.










