O trágico acidente ocorrido recentemente, que culminou na perda precoce de uma criança, gerou uma onda de consternação que ecoa por toda a nossa região. Diante dessa dor, surgiu uma reflexão urgente em meu coração que ultrapassa o luto: qual é a medida da nossa responsabilidade enquanto guardiões da próxima geração?
Juridicamente e psicologicamente, a criança é reconhecida como um ser absolutamente incapaz. Essa classificação não é apenas um termo técnico; é o reconhecimento de que o indivíduo em desenvolvimento ainda não possui discernimento sobre riscos, velocidade ou perigos iminentes.
Por essa razão, a legislação brasileira, através do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e do Código Civil, estabelece que o dever de vigilância cabe primordialmente aos pais. A presença física e a atenção dirigida não são opcionais; são garantias do direito à vida.
A preocupação se estende ao cenário atual das nossas cidades. Observamos, com frequência alarmante, crianças de 8 a 10 anos operando veículos elétricos em vias públicas. O que para muitos pais parece um “brinquedo tecnológico”, para a segurança pública é um veículo que exige maturidade e reflexos que a criança ainda não maturou.
Se a falta de zelo nas ruas nos tira o sono, a violência que invade as salas de aula nos paralisa. O devastador episódio ocorrido nesta terça-feira, 5 de maio de 2026, no Instituto São José, em Rio Branco (AC), é o retrato mais cruel da quebra desse dever de guarda. Um adolescente de apenas 13 anos entrou em sua unidade de ensino portando uma pistola pertencente ao seu padrasto e efetuou disparos que ceifaram as vidas das inspetoras Alzenir Pereira da Silva, a “Tia Zena”, de 53 anos, e Raquel Sales Feitosa, de 37 anos.
As vítimas, em um ato de heroísmo e proteção extrema, foram alvejadas ao tentar proteger os alunos durante a invasão. Este fato nos obriga a questionar: como uma arma de fogo — um instrumento de letalidade indiscutível — chega às mãos de um menor de idade? Aqui, a “imprudência terceirizada” que vemos no trânsito se transforma em responsabilidade criminal e tragédia social.
A imprudência muitas vezes é terceirizada:
- No trânsito: Espera-se que o motorista tenha “olhos de lince” para avistar uma criança pequena em pontos cegos.
- Na vizinhança: Delega-se à sorte o fato de uma criança estar brincando atrás de um veículo em movimento sem a supervisão de um adulto, ou simplesmente, jogando bola em via pública, a via é para carros, mas há pais que incentivam os filhos para terem sossego em casa.
- No ambiente doméstico: Confia-se que um adolescente não terá curiosidade ou acesso a objetos perigosos deixados sem a devida cautela.
Vivemos tempos de transições geracionais, onde muitos jovens assumem a parentalidade precocemente. No entanto, a idade cronológica dos pais não diminui o peso da responsabilidade. Ser pai ou mãe exige a compreensão de que a liberdade da criança deve ser estritamente mediada pela segurança. Não se trata de buscar culpados em tragédias já consumadas, mas de convocar os “capazes” a assumirem seus postos de sentinelas.
“A segurança de uma criança é o resultado da vigilância ininterrupta daqueles que a amam.”
Precisamos de uma corrente de conscientização. O motorista, o vizinho e o cidadão devem ser prudentes, mas o escudo primário de qualquer criança deve ser sua família. O sacrifício das educadoras no Acre é um lembrete doloroso de que, quando a primeira linha de defesa (a família e o zelo doméstico) falha, outros pagam o preço com a própria vida.
Escrevo estas linhas não apenas como um observador da sociedade ou como um acadêmico que analisa fatos, mas como um pai que já sentiu e sente, no âmago do ser, a dor de uma perda tão precoce. Como escritor, dedico parte da minha vida a criar contos e histórias para crianças e adolescentes, pois acredito piamente que essa geração é a semente de um mundo melhor e a base da nossa “corrente do bem”.
Ver o brilho de uma infância se apagar é uma ferida que atinge a todos nós. Por isso, este artigo não é uma crítica isolada, mas um chamado à conscientização de fato.
Que a dor do luto que hoje sentimos se transforme em uma mudança real de postura. Que não esperemos o próximo sinal sonoro de ré, o próximo cruzamento perigoso ou a próxima tragédia escolar para buscarmos as mãos de nossos filhos. Como dizia meu pai com a sabedoria dos antigos: “É melhor remediar do que chorar o fato acontecido”.
A prevenção é o maior ato de cuidado que podemos oferecer. Que nossa admiração pelo futuro dessas crianças se traduza em presença, zelo e responsabilidade hoje. Que nenhuma outra família precise sentir o peso do “depois“, quando o “agora” ainda está em nossas mãos.













