Domingo, 19h30. A fome chegou naquele ponto crítico em que você seria capaz de comer a sola do sapato se ela viesse com molho barbecue. Pego o celular e abro o aplicativo de delivery com a confiança de quem acredita que a tecnologia veio para facilitar nossa vida.
Primeira parada: o restaurante japonês que sempre peço. “Fechado para delivery”. Tudo bem, vamos de pizza. “Tempo de entrega: 1h30min”. Uma hora e meia para uma pizza? Estou pedindo comida ou encomendando um móvel planejado?
Desço mais um pouco e encontro o hambúrguer gourmet que parece uma obra de arte nas fotos. Preço: R$ 45. Quarenta e cinco reais por um sanduíche! Quando foi que hambúrguer virou investimento financeiro? Mas a fome não tem preço, né? Clico em “adicionar ao carrinho”.
Taxa de entrega: R$ 8,90. Taxa de serviço: R$ 3,50. Taxa pequena de embalagem: R$ 2,00. Espera, que taxa é essa? Taxa pequena? Existe taxa grande também? Taxa média? Por que não cobram logo uma taxa da existência da taxa?
No final, meu hambúrguer de R$ 45 virou R$ 59,40. Podia ter jantado em um restaurante chique, mas não, escolhi a experiência completa da ansiedade domiciliar.
Faço o pedido e recebo a confirmação: “Seu pedido será entregue em 45 minutos”. Ótimo, vou tomar um banho rapidinho. Quando saio do banheiro, uma notificação: “Ops! Houve um atraso na cozinha. Previsão atualizada: 1h15min”.
Já são 21h e minha barriga está fazendo ruídos que lembram trilha sonora de filme de terror. Abro o rastreamento: o entregador está parado há 20 minutos no mesmo lugar. Será que ele parou para jantar? Com o MEU hambúrguer?
21h30: “Seu pedido saiu para entrega!” Finalmente. Abro o mapa e vejo o ponto azul se movendo. Ele está vindo! Não, espera. Ele está se afastando. Por que está se afastando? Ele está levando minha comida para outro estado?
22h: o entregador volta a se aproximar. Sou até a janela a cada 5 minutos como criança esperando Papai Noel. O ponto azul para na esquina da minha rua. Fico ali esperando a campainha tocar. Nada. Volto ao aplicativo e o cara está do outro lado da cidade novamente.
22h15: recebo uma ligação. “Alô, é o entregador. Não estou encontrando seu endereço.” Moro aqui há 3 anos, meu endereço tem número, nome da rua, ponto de referência, até coordenadas GPS. Como assim não encontra? “Ah, é que o GPS me trouxe para outro bairro.” Claro que trouxe.
Depois de 10 minutos explicando como chegar na minha casa (incluindo desenhar um mapa mental pelo telefone), finalmente a campainha toca. Abro a porta e lá está ele: um garoto molhado pela chuva que começou há pouco, segurando minha sacola com cara de quem passou pelas sete pragas do Egito.
“Desculpa a demora, cara. Esse GPS tá louco hoje.” Dou gorjeta porque, sinceramente, qualquer um que consegue encontrar minha casa com GPS bêbado merece uma premiação.
Abro a sacola. O hambúrguer que nas fotos parecia obra de arte agora lembra mais um acidente de trânsito. A batata frita está com a textura de papelão molhado e a bebida está quente. Quente! Como conseguiram esquentar refrigerante?
Mas eu como mesmo assim, porque depois de 3 horas de expectativa, até miojo requentado seria um banquete. E enquanto mastigo meu hambúrguer desconstruído, já estou pensando: “amanhã vou cozinhar em casa”.
Spoiler: no dia seguinte, às 19h30, estarei novamente abrindo o aplicativo de delivery, porque aparentemente tenho memória de peixe dourado e otimismo de quem joga na loteria toda semana.
A vida moderna é isso: pagar caro para passar raiva no conforto do próprio lar.













