Porto Alegre (RS) – O Sistema Único de Saúde (SUS) deu o primeiro passo prático para avaliar a viabilidade de oferecer as chamadas “canetas emagrecedoras” na rede pública brasileira. Na última sexta-feira (26), o Ministério da Saúde deu sinal verde para o início de um projeto-piloto no Rio Grande do Sul que vai fornecer semaglutida — princípio ativo que imita o hormônio GLP-1 e ajuda a saciar a fome — a um grupo específico de pacientes obesos sob acompanhamento especializado.
A experiência ocorre no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, e deve se estender por dois anos. Ao todo, 250 pessoas que já realizam tratamento para obesidade grave na instituição foram selecionadas para receber a medicação. O perfil desse público é bastante delicado: trata-se de pacientes que, além do excesso de peso, enfrentam comorbidades severas, como comprometimento cardíaco, e que já possuem indicação clínica para a cirurgia bariátrica.
Desafio clínico no SUS
A escolha da instituição gaúcha reflete um cenário complexo e urgente. No Grupo Hospitalar Conceição, impressionantes 91% dos pacientes atendidos com obesidade sofrem com a forma mórbida da doença. Contudo, menos da metade deles — apenas 47% — reúne as condições clínicas necessárias para se submeter com segurança a uma cirurgia bariátrica. Para complicar o quadro, a hipertensão arterial é a comorbidade mais frequente entre essas pessoas.
A pesquisa pretende responder se o tratamento medicamentoso é sustentável para o caixa público e eficaz a longo prazo. Os médicos vão monitorar de perto a evolução dos voluntários, medindo o percentual de perda de peso, a melhora na qualidade de vida, exames laboratoriais, a recuperação pós-operatória e, principalmente, o impacto financeiro de todo o processo. O dinheiro para bancar o estudo não sairá do orçamento direto da saúde, mas sim de um repasse viabilizado pela Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com recursos provenientes da própria fabricante do remédio.
Critérios rígidos de seleção
Os participantes do projeto precisam cumprir exigências estritas. É necessário ter o diagnóstico de obesidade estabelecido há pelo menos 12 meses e comprovar que as abordagens tradicionais falharam. Isso significa demonstrar, por meio de prontuário, que o paciente seguiu dietas estruturadas e praticou atividades físicas regulares por, no mínimo, dois meses sem sucesso. Outro requisito básico é a autonomia: o paciente precisa ser capaz de compreender o tratamento e autoaplicar a injeção semanal, ou contar com um cuidador treinado que faça o procedimento.
A iniciativa surge em um momento de forte debate sobre o acesso a essas terapias modernas. Em agosto do ano passado, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) deu parecer contrário à inclusão da liraglutida e da semaglutida na lista de medicamentos distribuídos gratuitamente pelo governo. O pedido de incorporação havia sido feito pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, fabricante do Wegovy.
O grande obstáculo para a liberação sempre foi o impacto financeiro. Segundo estimativas técnicas, a oferta em larga escala de ambos os medicamentos para o público-alvo do SUS representaria um custo anual de cerca de R$ 8 bilhões. Com o projeto-piloto, a gestão pública espera colher dados reais para recalcular essa rota e entender se o investimento inicial pode evitar despesas ainda maiores com internações e procedimentos de alta complexidade no futuro.













