A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) obteve, junto ao escritório de patentes dos Estados Unidos, o reconhecimento de um método inovador para tratar a malária, especialmente em casos onde o parasita desenvolveu resistência aos fármacos convencionais. O registro, concedido em março deste ano com validade até 2041, contempla cientistas do Instituto René Rachou, unidade da instituição localizada em Minas Gerais.
O diferencial da molécula
O foco do estudo é o composto conhecido como DAQ, que demonstrou eficácia contra o Plasmodium falciparum, causador das formas mais severas da doença. Embora essa molécula já fosse conhecida desde a década de 1960, a equipe coordenada pela pesquisadora Antoniana Krettli utilizou técnicas modernas de química e biologia molecular para redescoberta do seu potencial. O grupo identificou que uma ligação tripla específica na estrutura química da substância permite superar as defesas criadas pelo microrganismo.
Mecanismo de ação e eficácia
O funcionamento do DAQ assemelha-se ao da cloroquina, pois interrompe um processo vital para a sobrevivência do parasita. Durante a digestão da hemoglobina humana, o parasita gera substâncias tóxicas que, normalmente, ele consegue neutralizar para sobreviver. O composto da Fiocruz bloqueia essa estratégia de defesa, resultando na eliminação do agente causador da malária. Testes indicaram ação veloz nas fases iniciais da infecção e resultados positivos contra o Plasmodium vivax, espécie predominante nos registros brasileiros.
Próximos passos da pesquisa
O desenvolvimento do tratamento envolveu parcerias com a University of California San Francisco, a Universidade Federal de Alagoas e a PUC-Rio. Atualmente, novos estudos ocorrem em conjunto com a Universidade Federal de São Paulo. Apesar do avanço, a transformação do DAQ em um medicamento disponível ao público ainda requer etapas rigorosas, como a análise de toxicidade, a definição de dosagens seguras e a criação de uma formulação farmacêutica definitiva.
Aposta estratégica na saúde pública
Os pesquisadores destacam que o baixo custo potencial da molécula é um fator estratégico para nações de baixa e média renda, onde a malária é endêmica. A infraestrutura da Fiocruz na região amazônica, que inclui o acompanhamento direto de pacientes e experiência em testes clínicos, é vista como um trunfo para agilizar o desenvolvimento do fármaco. O alerta central dos cientistas é que, como o parasita evolui constantemente, a criação de novas alternativas terapêuticas é urgente para prevenir futuras falhas nos tratamentos disponíveis.












