Serra (ES) – Andar pela vizinhança virou um exercício de sobrevivência para grande parte da população idosa do país. Quase metade de quem vive em áreas urbanas no Brasil — precisamente 42% — convive com o medo constante de cair devido a falhas nas calçadas e vias públicas próximas de casa. O dado, extraído da terceira onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (Elsi-Brasil) referente aos anos de 2023 e 2024, revela uma realidade invisível de confinamento forçado e perda de autonomia.
Esse receio não se distribui de maneira igual. Entre as mulheres, a insegurança atinge 50,5%, enquanto afeta 31,9% dos homens. A idade agrava o quadro de forma nítida: o temor afeta 35,2% das pessoas na faixa dos 60 anos, salta para 47,1% na dos 70 e alcança 63,1% entre quem tem mais de 80. Para piorar, a infraestrutura hostil soma-se à violência para encolher a circulação de 12,1% dos idosos — cerca de 3,8 milhões de cidadãos —, que avaliam seus próprios bairros como vizinhanças muito inseguras.
A ameaça silenciosa dentro de casa
Muito além dos perigos visíveis no asfalto, há vulnerabilidades no próprio corpo. Exames domiciliares realizados pela pesquisa revelaram que 34,4% da população de terceira idade apresenta pressão arterial igual ou superior a 14 por 9. São 11 milhões de pessoas sob o risco silencioso da hipertensão sistêmica, que evolui de 31,9% de incidência (entre 60 e 69 anos) para 40,1% depois dos 80 anos. Por ser assintomática, o diagnóstico na rede primária de saúde é essencial para deter o avanço de complicações fatais ou debilitantes, como derrames e infartos.
A solidão do cuidado diário
O diagnóstico feito de forma conjunta entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também mapeou a perda da independência motora. Hoje, 20,4% dos idosos (cerca de 6,5 milhões de pessoas) relatam séria dificuldade para realizar ao menos uma tarefa cotidiana essencial, como tomar banho, vestir-se ou sair da cama. Essa barreira afeta 23,1% das mulheres e 17% dos homens, escalando de 13,9% (na faixa dos 60 anos) para severos 44,2% no grupo de octogenários.
O apoio familiar que deveria sustentar esse grupo enfrenta um vácuo: apenas 37,9% dos que sofrem com limitações recebem de fato algum suporte, e apenas 5,8% dos cuidadores passaram por qualquer tipo de preparo básico.
Nesse cenário frágil, o Sistema Único de Saúde (SUS) funciona como o esteio essencial do envelhecimento brasileiro. Cerca de dois terços dos cidadãos de 60 anos ou mais dependem puramente da estrutura estatal de saúde pública. A própria Estratégia Saúde da Família (ESF) alcança 69,2% de cobertura, monitorando de perto cerca de 22,2 milhões de idosos. Para reorientar políticas de acolhimento sob a ótica das metas globais da ONU para a Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030), a coordenação da pesquisa, liderada pela pesquisadora Maria Fernanda Lima-Costa, liberou esses dados em um inédito painel público de livre acesso.











