Teresina (PI) – Celia Maria da Silva Soares, aos 66 anos, conhece o peso e a satisfação de cultivar a terra. No Assentamento Santana Nossa Esperança, na zona rural de Teresina, Piauí, a rotina começa às 6h. Ela e o marido, Francisco, dedicam o dia a colher milho, abóbora, macaxeira e maxixe, além de manejar o mel e o beiju. Tudo orgânico, cultivado sem o uso de agrotóxicos. A produção não serve apenas à mesa da família, onde os netos preferem o feijão verde da horta a qualquer outra opção; o trabalho dela tornou-se um elo vital na economia local e no combate à fome.
Há dez anos, a vida de Célia mudou drasticamente ao integrar o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Criada em 2003, a política pública funciona com uma lógica simples: o governo adquire os itens diretamente de pequenos produtores e os destina a entidades socioassistenciais, sejam elas públicas ou filantrópicas. Para Célia, o resultado prático foi a possibilidade de reformar sua casa — “hoje é tudo na cerâmica”, conta, orgulhosa do progresso alcançado desde que deixou Piripiri para tentar a vida na capital.
Um levantamento divulgado recentemente por instâncias governamentais corrobora essa percepção de avanço. Desenvolvido pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o estudo aponta que o PAA elevou em até 30% a renda dos agricultores atendidos. Mais do que números, a pesquisa indica uma transformação estrutural: a implementação do programa reduziu em 57% a probabilidade de esses trabalhadores permanecerem no Cadastro Único.
Os números nacionais dão a dimensão do alcance. Desde o início de 2023, cerca de R$ 2 bilhões foram investidos para adquirir 376,6 mil toneladas de alimentos. Ao todo, 140 mil produtores participaram da iniciativa, que abasteceu 9,3 mil entidades e beneficiou, direta ou indiretamente, 9 milhões de brasileiros em situação de vulnerabilidade.
O impacto financeiro varia conforme a modalidade de venda. Na categoria de Compra com Doação Simultânea, o incremento médio foi de R$ 50 na renda per capita. Para quem comercializa leite, o ganho médio registrado foi de R$ 32 por pessoa, um aumento de 19%. A capilaridade do programa impressiona: em 2024, ele marcou presença em 3.334 municípios, cobrindo 60% das cidades brasileiras.
Outro ponto de destaque no estudo é a mudança na composição dos beneficiários. Entre 2022 e 2024, a participação de produtores indígenas saltou de 0,7% para 6%, reflexo de uma política de priorização que buscou incluir populações historicamente marginalizadas. Para Célia, que há duas décadas trabalha o solo cedido pelo Incra, a maior vitória é o sentimento de comunidade. No assentamento, a partilha é constante e a comida nunca falta. O PAA, ao garantir o escoamento da produção, transformou a enxada em uma ferramenta definitiva de dignidade.












