Venda Nova do Imigrante (ES) – O Brasil completa, neste mês de julho de 2025, o primeiro aniversário fora do Mapa da Fome. O indicador oficial, que coloca o país em um patamar inferior a 2,5% da população em risco de subnutrição, marca uma vitória estratégica. Contudo, o cenário está longe de uma celebração plena: cerca de 6,5 milhões de brasileiros seguem enfrentando quadros de insegurança alimentar grave. O desafio agora é evitar que a conquista se torne um episódio isolado e transformá-la em uma estrutura permanente de proteção social.
Para especialistas, o sucesso exige uma abordagem que vá além da simples distribuição de comida. A fome, em sua raiz, é um reflexo de desigualdades profundas. Lucas de Almeida Moura, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome, da Universidade de São Paulo, enfatiza que a saída do Mapa da Fome pela segunda vez na história decorre de uma intersetorialidade robusta. Ele coordena o Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (MUFII), estudo que avalia a fome sob 12 indicadores de desenvolvimento sustentável. Os dados de 2022, publicados na revista Sustainability, traçaram um mapa de desigualdades regionais ainda latentes, com Santa Catarina em melhor posição e estados como Maranhão, Acre e Amazonas sofrendo com níveis de insegurança acima de 50%.
A estratégia central do governo federal tem sido o Plano Brasil sem Fome. A iniciativa articula a valorização da agricultura familiar, o reajuste da merenda escolar e o suporte a cozinhas comunitárias. Valéria Burity, secretária extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social, pontua que a meta de longo prazo é elevar a alimentação saudável a um direito garantido para todos os cidadãos, integrando estados e municípios nesse esforço de rede.
A professora Semíramis Domene, diretora do Instituto Fome Zero, identifica três pilares responsáveis pelo cenário atual. O primeiro é o combate frontal à desigualdade, impulsionado pela queda nos índices de desemprego — que atingiram o melhor nível em 13 anos — e pela política de reajuste do salário mínimo. O segundo pilar sustenta-se na proteção social, com o papel central do Bolsa Família e a modernização do Cadastro Único, que têm permitido às famílias uma ascensão econômica gradual. Por fim, o incentivo à produção local, via Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), retomou o protagonismo da agricultura familiar no abastecimento doméstico, deslocando o foco exclusivo das grandes commodities para a mesa do brasileiro.
O fator econômico também joga a favor. Daniel Duque, economista do Ibre/FGV, observa que a desaceleração da inflação dos alimentos, observada desde 2023, aliada a safras agrícolas consistentes, devolveu poder de compra a milhões de pessoas. Com o mercado de trabalho aquecido, a tendência é de continuidade, embora a vigilância permaneça necessária. Manter o país fora do Mapa da Fome exigirá, nos próximos anos, a manutenção desse equilíbrio entre renda, estabilidade de preços e políticas públicas transversais, garantindo que a segurança alimentar seja, enfim, uma realidade consolidada em todo o território nacional.










