Niterói (RJ) – O impacto do primeiro turno das eleições de 2022 reverberou de forma imediata nos corredores da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. Na noite de 5 de outubro, uma segunda-feira marcada por chuva, centenas de estudantes transformaram a angústia diante das urnas em um movimento de rua. O estopim foi a convocatória do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga e da Associação Atlética Acadêmica Camillo Guerreiro, ambos do curso de Direito. O que era para ser uma reunião interna escalou rapidamente, atraindo moradores e transeuntes em um trajeto que partiu da reitoria, em Icaraí, e retornou à sede da faculdade, no bairro do Ingá.
A urgência da mobilização nasceu na noite anterior, logo após a divulgação dos resultados que colocaram o então candidato ao Senado, Flávio Bolsonaro (PL), com 47% dos votos, à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, que registrou 45%. Para os universitários, a perspectiva de vitória da extrema-direita representava um risco direto à integridade das instituições públicas. Valentina Cruz, diretora do centro acadêmico, apontava para o plano de governo do candidato do PL, que previa a transferência das universidades para a alçada do Ministério da Ciência e Tecnologia — uma manobra que, na visão dos estudantes, significaria um estrangulamento orçamentário profundo, repetindo o cenário de contingenciamentos sofridos entre 2019 e 2022.
O histórico recente da gestão de Jair Bolsonaro, que rotulou estudantes como massa de manobra e promoveu cortes de verbas sob o argumento de combater a balbúrdia, serviu como combustível para a revolta. Simão Gabriel Adorno, membro da atlética do curso, recorda que o receio não era apenas institucional, mas pessoal: a sobrevivência das bolsas de pesquisa e do auxílio permanência, essenciais para a parcela mais vulnerável do corpo discente, estava em jogo. Além disso, a pauta da anistia defendida por apoiadores de Bolsonaro, que à época enfrentava acusações por sua participação na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro, gerava forte oposição entre os jovens do Direito, que viam na eleição um risco à própria democracia.
O ato ganhou volume conforme a noite avançava. João Paulo Armando, também diretor do centro acadêmico, relata que a intenção original de promover um debate restrito à comunidade acadêmica foi superada pela adesão popular. Durante a caminhada, os estudantes hastearam a bandeira do Direito Antifascista, um símbolo criado em 2018. O gesto carregava o peso da memória histórica, evocando o caso de Fernando Santa Cruz, ex-aluno da UFF desaparecido durante a ditadura militar. A presença de uma idosa, que acompanhou o grupo sob chuva enquanto declarava a importância de proteger o futuro, tornou-se um símbolo daquele momento, ainda que a manifestação não tenha sido imune a hostilidades, como o lançamento de ovos por parte de opositores.
A iniciativa de Niterói serviu como um efeito dominó. Ao longo daquela semana, as ruas do centro do Rio de Janeiro foram ocupadas e protestos se espalharam pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília. A mobilização estudantil passou a ser vista como uma peça fundamental para conquistar o voto dos indecisos e daqueles que se abstiveram no primeiro turno. Estudantes como Isabela Casalini, de 21 anos, definiram o sentimento da época como uma revolta necessária diante do cenário político, reiterando que o posicionamento coletivo nas ruas era a única forma de enfrentar o avanço de pautas autoritárias.
Para a historiadora Carolina Barreto, o protagonismo dos jovens da UFF está inserido em uma linhagem histórica de resistência estudantil, que remonta desde a fundação da União Nacional dos Estudantes, passando pelo movimento Fora, Collor, até as manifestações de 2013. Segundo ela, a atuação desses grupos apenas enfraqueceu, historicamente, durante o período de maior organização dos sindicatos, nos anos 1980. O advogado Felipe Santa Cruz, ex-presidente da OAB, reforçou o coro de apoio, destacando que os estudantes assumiram o papel de vanguarda ao se indignarem espontaneamente. Para ele, a atitude daquela turma da UFF representou um gesto de bravura cívica, uma resposta direta e organizada frente ao autoritarismo que ameaçava o país naquele período decisivo.













