Brasília (DF) – O cenário das campanhas eleitorais brasileiras enfrenta um processo de esvaziamento temático, impulsionado por um fenômeno que a presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, define como a tiktokização da política. Segundo a dirigente, a disputa pelo voto tem sido reduzida a conteúdos superficiais, com candidatos priorizando dancinhas e estratégias de marketing viral em detrimento de uma discussão séria sobre os desafios que o país precisa enfrentar.
Essa dinâmica ocorre paralelamente a uma crise político-institucional que capturou o centro das atenções. O desdobramento de denúncias que envolvem órgãos como o Poder Judiciário e a Polícia Federal — notadamente o chamado caso Master — tem pautado o noticiário de forma quase exclusiva. Para a presidenta da Fenaj, esse cenário cria um efeito colateral grave: as propostas estruturais das candidaturas e as demandas reais da sociedade civil acabam relegadas ao segundo plano, perdendo espaço para um fluxo constante de repercussões imediatas.
A crítica central reside na postura adotada por grande parte da imprensa, que, na tentativa de competir com a lógica das redes sociais, tem optado por um jornalismo declaratório, focado no engajamento instantâneo. Ao seguir essa trilha, o debate público se torna fragmentado e volátil. O resultado é um prejuízo direto à cidadania, já que o eleitor não encontra meios para avaliar, com a devida profundidade, os programas de governo, tanto em âmbito nacional quanto estadual.
Samira de Castro aponta que o jornalismo enfrenta um desafio ético urgente. Existe uma disputa de projetos em curso, onde determinados segmentos políticos e econômicos possuem interesse na manutenção diária do foco sobre as crises institucionais, frequentemente por meio de vazamentos seletivos. Cabe aos veículos de comunicação, na visão da jornalista, superar a função de apenas ecoar o embate político e resgatar o compromisso com a informação de interesse público, evitando ser instrumentalizado por narrativas de curto prazo.
A urgência de romper esse ciclo de superficialidade é evidenciada pela falta de espaço dada a temas cruciais para o futuro do Brasil. Questões como a crise climática, o aproveitamento estratégico das reservas de terras raras e os impactos socioeconômicos e geopolíticos da instalação de grandes data centers no país mal aparecem nos programas eleitorais. A expectativa é que o jornalismo consiga, apesar da pressão por audiência, insistir em uma pauta de longo prazo.
À medida que o primeiro turno se aproxima, marcado para o dia 4 de outubro, a Federação Nacional dos Jornalistas reforça a necessidade de pluralidade e responsabilidade. Sem uma mudança na forma como as campanhas se comunicam e na maneira como os fatos são tratados pelo noticiário, o risco é o de uma eleição que decide nomes sem, contudo, debater os caminhos reais para superar os impasses estruturais da nação.










