Vitória (ES) – Enquanto o debate público nacional é tomado por polêmicas político-institucionais e pelos desdobramentos do chamado caso Master, o Brasil enfrenta um esvaziamento preocupante em suas discussões estratégicas. Questões fundamentais para o desenvolvimento futuro, como a transição energética, a gestão de minerais críticos e a preparação para o envelhecimento populacional, permanecem à margem da campanha eleitoral. Para Francilene Garcia, presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o cenário atual impõe uma falsa escolha aos eleitores e candidatos: a crença de que é necessário optar entre fiscalizar as instituições ou planejar o projeto de desenvolvimento do país, quando ambos os pilares são inseparáveis para a soberania nacional.
A pesquisadora, que é doutora em engenharia elétrica e professora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), destaca que a ciência brasileira, historicamente colocada em segundo plano, ainda não encontrou espaço real nas propostas dos postulantes a cargos públicos. Mesmo após as lições deixadas pela crise sanitária da COVID-19 e pelos recentes eventos climáticos extremos que devastaram regiões como o Rio Grande do Sul e o Centro-Oeste, a pauta científica permanece periférica. Segundo a líder da SBPC, a atual atmosfera de disputa política, marcada pelo vazamento de informações e pela centralidade de escândalos, acaba inibindo o engajamento das candidaturas em temas que demandam planejamento de longo prazo e estabilidade normativa.
Para tentar reverter esse distanciamento, a entidade lançou o Observatório das Eleições, uma iniciativa que reúne mais de uma centena de propostas de políticas públicas. Contudo, o engajamento dos candidatos tem sido tímido e perdeu força nas últimas semanas. Até o momento, a adesão de candidaturas majoritárias ao Executivo federal é nula, e o interesse entre os postulantes aos governos estaduais segue praticamente inexistente. Francilene Garcia pontua que essa ausência de compromisso com a agenda científica reflete um desconhecimento, por parte da classe política, sobre os desafios cruciais que o país precisará enfrentar na próxima década, como a mudança no perfil demográfico da população e os reflexos da inteligência artificial no mercado de trabalho.
Apesar da gravidade das investigações que ocupam os noticiários, a posição da SBPC e de outras entidades, como a Academia Brasileira de Ciências (ABC), é de que o respeito ao rito processual e à Constituição Federal deve prevalecer. A preocupação da comunidade científica reside na instrumentalização do debate público: o uso de informações vazadas para interesses particulares que, ao monopolizar a atenção, impedem que o eleitorado tome conhecimento de temas que afetam diretamente sua qualidade de vida. A fragilidade das estratégias de imunização, a resistência a protocolos sanitários e a soberania digital são apontadas pela entidade como perigos silenciosos que o próximo governo precisará gerir.
A presidente da SBPC questiona, em última análise, qual é o futuro que os candidatos pretendem oferecer ao Brasil. Se a discussão sobre o aproveitamento de recursos naturais — como as terras raras, essenciais para a nova economia global — continua ausente, o país corre o risco de permanecer apenas como um exportador de matéria-prima. Sem uma política robusta de ciência e tecnologia, a autonomia nacional fica comprometida. Francilene Garcia reforça que a falta de visão sobre os próximos dez anos, quando a proporção de idosos superará a de pessoas em idade produtiva, é o maior sintoma de uma classe política que parece alheia às mudanças estruturais que já batem à porta.












