Washington, Estados Unidos – O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) deu início a uma série de audiências públicas em Washington focadas no desempenho e nas políticas regulatórias brasileiras. O movimento faz parte de um processo rigoroso de consultas formais, fundamentado na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que confere ao governo americano prerrogativas para investigar ações de parceiros estrangeiros consideradas prejudiciais aos interesses nacionais.
A primeira rodada de debates, iniciada na segunda-feira (6) e prevista para encerrar nesta terça (7), coloca uma lupa sobre seis pilares da economia local. Estão na mesa de discussão o comércio digital, a regulação do Pix, a proteção à propriedade intelectual, as tarifas preferenciais, o acesso ao mercado de etanol e, por fim, o controle do desmatamento ilegal. A ameaça de uma sobretaxa de 25% sobre diversos produtos brasileiros paira sobre o debate, gerando apreensão em setores como o café, a indústria automotiva e a agropecuária.
Uma segunda frente de investigação, programada para durar três dias, a partir de hoje até quinta-feira (9), amplia o escopo para 60 nações. O foco aqui é o combate ao trabalho análogo à escravidão e o bloqueio à entrada de mercadorias produzidas sob regimes de trabalho forçado. Entidades como a Centrorochas e o Sindifer já se mobilizaram para contestar tais apontamentos, buscando provar que as alegações ignoram a dinâmica real de suas cadeias produtivas.
O volume de participantes reflete a tensão no setor produtivo. Empresas como a Embraer, a CNI, a Unica, o Cecafé e a CNA enviaram representantes para defender seus interesses. O senador Flávio Bolsonaro também consta na lista de depoentes esperados para esta terça-feira. No caso das rochas ornamentais, a Centrorochas argumenta que a taxação seria um tiro no pé dos americanos: o Brasil exportou quase US$ 800 milhões em materiais para os EUA no último ano, suprindo demandas de alto padrão que a indústria local não consegue absorver sozinha.
O governo brasileiro, por meio do Itamaraty, já havia enviado manifestação formal no mês passado rejeitando as premissas do USTR. Em documento, a diplomacia brasileira sustenta que Washington não conseguiu estabelecer um nexo causal claro entre as políticas públicas nacionais e qualquer prejuízo concreto ao comércio dos Estados Unidos. Para o Itamaraty, o USTR estaria confundindo divergências estratégicas — escolhas soberanas do Brasil — com práticas comerciais desleais.
A argumentação brasileira é técnica: a lei citada pelos americanos não serviria de ferramenta para punir países apenas pela discordância ideológica ou política. Resta saber se o governo estadunidense acatará os argumentos técnicos apresentados pelos setores produtivos e pelo corpo diplomático ou se prosseguirá com a aplicação de medidas unilaterais, o que poderia desencadear um cenário de incertezas para as exportações brasileiras.









