Rio de Janeiro (RJ) – O relógio marcava oito da manhã quando a embarcação que partia da Marina da Glória, na região central do Rio de Janeiro, precisou aguardar o dissipar de um nevoeiro para seguir viagem. O atraso não diminuiu a expectativa daqueles que, por mais de uma década, projetaram a abertura da Trilha da Comprida. Inaugurada oficialmente no último domingo, 28, ela representa a primeira incursão insular em uma Unidade de Conservação no município carioca.
Localizada no Monumento Natural das Ilhas Cagarras (Mona Cagarras), a cerca de 5 quilômetros da Praia de Ipanema, a trilha é um desafio técnico. O acesso é exclusivamente marítimo e exige que o visitante encare, logo no desembarque, um trecho de nado de aproximadamente 30 metros. A partir daí, o terreno exige esforço: uma subida íngreme pelo costão de pedra que dá lugar a um declive acentuado sobre a rocha. A classificação de dificuldade, que varia de moderada a alta, não é apenas um aviso burocrático; é uma necessidade de segurança.
A transformação do arquipélago é evidente para quem acompanha seu histórico. Antes da criação da unidade, em 2010, o cenário era degradado pelo uso desordenado e pela ocupação de barcos para lazer predatório. Flávio Carneiro, escalador que frequenta o local desde 2002 e participou das discussões iniciais do projeto em 2012, lembra que as primeiras ações de limpeza retiraram montanhas de detritos, de pneus a grades metálicas. Hoje, a realidade é outra, e a preservação tornou-se o eixo principal da gestão.
Tatiana Ribeiro, analista ambiental do ICMBio e gestora da Mona Cagarras, enxerga a trilha como um instrumento estratégico. A presença do visitante — desde que seja o perfil correto, consciente e parceiro da conservação — atua como uma vigilância ativa sobre o patrimônio natural. A rota agora integra oficialmente a Trilha Transcarioca, marcando o primeiro trecho oceânico desse percurso que se estende por 180 quilômetros, de Barra de Guaratiba até o Morro da Urca.
O desenho da trilha oferece três níveis de percurso: o bate e volta de 400 metros pela face sul, o trajeto curto de 800 metros, e a rota completa de 1.200 metros, que contorna as faces sul, norte e leste da ilha. Do topo, a vista recompensa o esforço: o contorno das montanhas cariocas, o chamado “Gigante Adormecido”, revela-se por um ângulo inusitado. A Pedra da Gávea, o Corcovado e o Pão de Açúcar formam, a partir dali, uma silhueta que poucos haviam contemplado antes da abertura oficial.
O ecossistema que a trilha atravessa é um refúgio vital. As ilhas, que incluem as porções de Palmas, Cagarra e Redonda, abrigam a maior colônia reprodutiva de fragatas do Atlântico Sul e são áreas essenciais para a conservação da fauna marinha, incluindo a passagem de baleias-jubarte e orcas. A estrutura de visitação, amadurecida desde 2021 com o Plano de Uso Público, exige agora protocolos rigorosos de segurança e a contratação de serviços credenciados pelo ICMBio.
Para quem se aventura entre 7h e 17h, a recomendação oficial é clara: o preparo físico e a consulta prévia ao Guia do Visitante são fundamentais. O que começou como uma promessa de conservação em 2012 consolidou-se como um novo marco na experiência turística e ambiental do Rio de Janeiro.













