Santarém (PA) – O Pará acumulou mais de 2 milhões de hectares desmatados entre 2019 e 2025. Diante desse passivo expressivo, uma iniciativa na comunidade de Jaderlândia, em Santarém, propõe um caminho diferente. O biólogo Sidcley Matos Pereira e a veterinária Adna Picanço decidiram agir de forma prática criando, em 2018, o Viveiro Florestal Ardosa. O empreendimento transforma a necessidade de recuperar áreas degradadas em um modelo viável de restauração ecológica.
A ideia nasceu do cotidiano profissional com animais silvestres. Ao tratarem espécies feridas em áreas devastadas, os dois perceberam que a soltura dependia diretamente da recuperação de habitats que oferecessem alimento. O plano de se estabelecer na região ganhou força com o nascimento da filha, Catarina. Hoje, o viveiro cultiva mais de 110 espécies nativas da Amazônia, incluindo cumaru, andiroba, itaúba, gombeira e açaí.
Expansão e rastreabilidade
A capacidade de produção do espaço vive um salto significativo. No primeiro semestre de 2026, a expectativa é alcançar entre 200 mil e 250 mil mudas, superando a média anterior de 100 mil por ano. A ampliação foi impulsionada por um aporte de R$ 190 mil em infraestrutura da Conservação Internacional Brasil (CIB), utilizado para estruturar novas bancadas, construir um galpão de trabalho e expandir áreas de sombreamento.
Diferente de negócios focados em monocultivos de crescimento rápido, o viveiro prioriza a diversidade de espécies para atender à restauração ecológica real. A maior parte da demanda vem de produtores rurais que buscam regularizar suas terras após notificações ambientais. Para garantir o rigor técnico, o local opera com sementes rastreáveis autorizadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, obtidas junto a coletores de estados como Acre, Amazonas, Mato Grosso e Pará, além de manter cooperação técnica com a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).
Desafio ecológico e bioeconomia
Embora o desmatamento no Brasil tenha apresentado queda de 20,6% em 2025, o país ainda perdeu 984,7 mil hectares de vegetação nativa no período, dos quais 289,4 mil na Amazônia. A restauração florestal é peça central nas metas do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que prevê recuperar 12 milhões de hectares até 2030. Atualmente, o Observatório da Restauração aponta que 39.710 hectares estão em processo de recuperação no bioma amazônico, com 11.150 localizados no Pará.
O pesquisador Rafael Rode, da Ufopa, argumenta que o segredo para o sucesso dessa transição está em aliar a preservação ao ganho financeiro com espécies de valor econômico. No mesmo sentido, a professora Patrícia Chaves de Oliveira defende que as populações locais liderem esses negócios. Apoiado pelo Sebrae, o viveiro demonstra que a cadeia produtiva, desde a coleta das sementes até o plantio, é capaz de gerar desenvolvimento social mantendo a floresta em pé.











