Santarém (PA) – Quando a chuva cessa sobre Santarém, no Pará, o movimento na Boto Gelato ganha ritmo. Em pleno mês de maio, período marcado pelo inverno amazônico e suas tempestades repentinas, o estabelecimento atrai clientes em busca de algo que transcende o refresco tradicional: uma experiência enraizada nos sabores da floresta. Para Eloísa Bento, gerente comercial que atravessa a cidade em busca de uma casquinha, o valor da marca está na memória afetiva. Ela descreve o prazer de reencontrar o gosto real do cupuaçu e do açaí, longe das opções artificiais que dominam o mercado.
O cérebro por trás das receitas é Tiago Silva. Engenheiro de produção, ele inaugurou o negócio em 2016 aplicando técnicas internacionais de gelateria aos frutos da região. No balcão, o cardápio desafia o paladar: há o Treme Treme, uma fusão de maracujá, cupuaçu e jambu que entrega a característica ardência da erva, e o Carimbó, uma homenagem cultural que mistura castanha-do-pará, nibs de cacau e tapioca. Tiago defende que a preocupação com a textura, o derretimento e a cremosidade eleva o ingrediente amazônico a um patamar de excelência global, muitas vezes superando o popular pistache — fruta que, vale notar, o Brasil importa integralmente, majoritariamente dos Estados Unidos.
A comparação é simbólica para a bioeconomia nacional. Enquanto o país depende de 100% de importação para suprir a demanda por pistache, a castanha-do-brasil, ou do-pará, é uma potência nativa. Dados de 2024 do IBGE, por meio do levantamento de Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (Pevs), mostram que Acre, Amazonas e Pará concentram 80% da produção interna, totalizando mais de 30 mil toneladas. O desafio de Tiago, apoiado pelo Sebrae, foi integrar esse potencial bruto a uma cadeia de suprimentos ética.
O elo central dessa rede é o Mercadão 2000, fundado em 1985 à beira do Rio Tapajós. Ali, a dinâmica de trabalho mantém os pés na agricultura familiar e no extrativismo sustentável. O galpão da Associação dos Produtores Rurais de Santarém (Aprusan) abriga cerca de 250 feirantes. Kelly Reis Roque, produtora da comunidade Boa Fé, observa de perto essa mudança. Há 18 anos vendendo frutas como pitaia, cupuaçu e mamão, ela nota que pousadas e gelaterias tornaram-se clientes assíduos. O interesse comercial das empresas locais gera um efeito cascata: o consumidor final, ao provar o gelato, muitas vezes busca a origem do produto na feira.
William Gonçalves da Silva, que atua no setor de farinhas e derivados da mandioca desde às 4h30 da manhã, compartilha do mesmo sentimento. Para ele, o sucesso de negócios como o de Tiago valida o esforço de quem trabalha no campo. A integração não é apenas logística; é uma questão de reconhecimento. Tiago Silva, que mantém uma relação de fidelidade com seus fornecedores, define sua missão com clareza. Ao priorizar a compra direta, ele não apenas garante a qualidade técnica de seus gelatos, mas sustenta o ciclo da bioeconomia local. O empresário projeta agora um objetivo maior: exportar não apenas o produto final, mas o conceito de preservação do território amazônico, transformando cada porção de sorvete em um convite para o mundo conhecer a realidade do Baixo Amazonas.












