Belterra (PA) – Sob a copa das andirobeiras, árvores que alcançam até 50 metros de altura na Floresta Nacional do Tapajós, o ciclo produtivo das Amélias da Amazônia começa com a queda dos frutos. Na comunidade São Domingos, em pleno Pará, um grupo de 16 mulheres extrai o óleo que sustenta suas famílias. O processo é manual, lento e segue o ritmo da floresta: envolve a coleta das sementes, higienização, cozimento, secagem e a decantação, uma técnica herdada de gerações anteriores que, antes de 2016, era subutilizada.
Marileide da Silva Monteiro, uma das líderes do projeto ao lado das irmãs Marilene e Marcilene, relembra o passado recente. O desperdício era a regra. A iniciativa de transformar o extrato em mercadoria surgiu como alternativa ao trabalho exaustivo nas roças de subsistência. O nome escolhido para a marca é um deboche necessário. Enquanto o senso comum associou “Amélia” à submissão, as ribeirinhas do Tapajós ressignificaram o termo, enfrentando o trabalho pesado de limpar terrenos com enxada e arrancar tocos de árvores para erguer a estrutura do negócio. Hoje, a produção já não se limita aos óleos de andiroba e copaíba; velas, sabonetes e repelentes compõem um catálogo que gera renda direta, permitindo investimentos na educação de uma nova geração, representada pela jovem Silvia Gabrielly.
A força desse modelo reside na integração com o mercado. O óleo das Amélias serve de base para a Mahá Biocosméticos, uma empresa fundada pelas farmacêuticas Melissa Karen Lage e Bruna de Souza, ex-alunas da Ufopa. Ao identificarem a escassez de produtos de alto desempenho para cabelos cacheados, a dupla trocou ingredientes importados por ativos locais. Essa parceria é mediada pela Oka Hub, em Belterra, uma incubadora que conecta o saber empírico das comunidades tradicionais à estrutura científica de instituições como o Sebrae e a própria Ufopa.
A localização da incubadora, contudo, guarda um peso histórico curioso. Ocupa o mesmo solo onde, na década de 1930, Henry Ford tentou instalar um modelo industrial fordista para a produção de látex. A Vila Americana, com suas casas anacrônicas e sirenes de fábrica, fracassou por ignorar o modo de vida amazônico. A historiadora Venize Nazaré Ramos Rodrigues aponta que aquele projeto impôs uma lógica de produção padronizada e fragmentada, em choque direto com os ciclos da natureza.
Hoje, a “modernidade” na região segue um caminho oposto. No Museu de Ciências da Amazônia (MuCA), que divide espaço com a Oka Hub, a ciência não desdenha a tradição. Arthur Carvalho, responsável pelas áreas educacional e laboratorial da instituição, sintetiza essa mudança de paradigma: todo conhecimento científico ali desenvolvido tem raízes na observação empírica das populações ribeirinhas. Mais do que produtos de prateleira, o que se observa na região é uma tentativa de criar uma economia de escala que preserve a floresta em pé, transformando a ancestralidade em um motor de inovação tecnológica e autonomia econômica.












