Brasília (DF) – Um cenário pouco usual tomou conta da área externa do Sesi Lab, na Esplanada dos Ministérios, a partir desta segunda-feira (29). O projeto Cultiva Lab inaugurou um espaço que replica sistemas agroecológicos de quatro biomas brasileiros, transformando o coração administrativo da capital federal em um laboratório a céu aberto de biodiversidade e tecnologia industrial.
A iniciativa não é apenas paisagística. Trata-se de uma estratégia para demonstrar na prática como a regeneração de áreas degradadas pode ser aliada à produção de alimentos. O plantio inclui 340 mudas de 90 espécies, dispostas criteriosamente para simular a dinâmica natural — incluindo as zonas de transição entre ecossistemas. Quem caminha pelo local encontra desde a sumaúma e o guaraná, típicos da Amazônia, até o pequi e o ipê do Cerrado, sem esquecer os cactos da Caatinga e o pau-brasil da Mata Atlântica.
O desenho do espaço reserva camadas distintas. Sob as copas das grandes árvores, o cultivo de espécies de ciclo curto, como mandioca, milho, abóbora e ervas medicinais, garante o uso eficiente do solo. A estimativa é de uma colheita anual entre 3 e 5 toneladas de alimentos, que serão destinados integralmente a dez instituições sociais.
A sustentação desse sistema, segundo o engenheiro florestal Cláudio Jacintho, reside nos princípios da agricultura regenerativa. O objetivo é devolver vida ao solo, incentivando a proliferação de fungos e a presença de microfauna, o que eleva a capacidade de drenagem e cria um microclima ideal para o desenvolvimento da vegetação.
Para além da colheita, o Cultiva Lab funciona como uma ferramenta pedagógica. Estudantes terão a chance de realizar atividades de campo e colheitas monitoradas. Paralelamente, o local servirá de suporte para pesquisas sobre captura de carbono e o aprimoramento de técnicas agroflorestais. A expectativa é que o sistema capture 10 toneladas de gás carbônico por ano, um dado que servirá de base para estudos comparativos sobre o impacto das atividades do museu.
A gestão do espaço também prevê uma ocupação artística constante. A cada ciclo de cinco anos, o projeto deve receber 50 artistas e 50 pesquisadores em programas de residência. Eles trabalharão na interface entre as artes plásticas e as ciências agrárias, utilizando o crescimento das plantas como matéria-prima para futuras intervenções. Segundo a curadoria, a mera convivência com o ambiente, em constante transformação, já cumpre o papel de despertar uma nova consciência ambiental nos visitantes, promovendo uma relação mais equilibrada entre o urbano e o meio natural.













