Rio de Janeiro (RJ) – A rotina das tardes de segunda-feira de Fernando Iggnácio costumava ser previsível. O contraventor, genro de Castor de Andrade — um dos nomes mais fortes da contravenção carioca nas décadas de 1970 e 1980 —, costumava retornar de helicóptero de Angra Reis diretamente para o Rio de Janeiro após passar o fim de semana na Costa Verde. Naquela tarde de novembro de 2020, porém, o desembarque rotineiro no heliponto Heli-Rio, localizado na Avenida das Américas, no Recreio dos Bandeirantes, transformou-se em um cenário de guerra.
Iggnácio foi surpreendido por uma emboscada violenta no estacionamento do local. Atiradores posicionados estrategicamente em um terreno baldio vizinho utilizaram fuzis de grosso calibre para executar o plano. O contraventor morreu ainda no asfalto, atingido por um disparo na cabeça, enquanto sua esposa, que permanecia no interior da aeronave a poucos metros de distância, testemunhou toda a ação.
Quatro anos após o homicídio que expôs novamente as violentas disputas territoriais do jogo do bicho no Rio de Janeiro, o I Tribunal do Júri da capital aplicou punições severas aos executores. Os irmãos Pedro Emanuel e Otto Samuel D’Onofre Andrade Silva Cordeiro foram condenados pelo assassinato. O juiz Thiago Portes, responsável por presidir a sessão, estipulou para Pedro Emanuel a pena de 32 anos, 9 meses e 18 dias de prisão. Otto Samuel recebeu a sentença de 31 anos, 5 meses e 6 dias de reclusão. A Justiça determinou que ambos cumpram o início de suas penas em regime fechado.
Durante a leitura da sentença, o magistrado fez duras ponderações sobre o comportamento dos réus, apontando para a frieza e o emprego de violência desmedida na execução do crime. Um dos agravantes que pesaram contra Pedro Emanuel foi sua condição profissional na época dos fatos. O réu atuava como policial militar e, segundo a fundamentação judicial, usou da capacitação técnica fornecida pelo Estado para servir aos interesses escusos da máfia da contravenção carioca.
Em plenário, os dois irmãos preferiram não responder às perguntas e mantiveram o silêncio durante os interrogatórios. Com o fim do julgamento em primeira instância, os advogados de defesa anunciaram que pretendem ingressar com recurso para tentar reverter a decisão no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
O caso já acumula outros desdobramentos importantes no sistema de Justiça. Em abril deste ano, outro envolvido direto no atentado, Rodrigo Silva das Neves, passou pelo banco de réus e acabou condenado a uma pena superior a 32 anos de reclusão pelo crime.
Contudo, a investigação sobre o mentor intelectual da morte de Iggnácio segue caminhos distintos. O contraventor Rogério de Andrade, primo da esposa da vítima, é acusado pelo Ministério Público de ter ordenado a execução. Devido à complexidade do caso, ele responde às acusações em um processo desmembrado. Rogério permanece detido em uma penitenciária federal de segurança máxima, fora do estado do Rio de Janeiro, enquanto aguarda sua convocação para enfrentar o júri popular.










