Dizem que Ibatiba é o mundo. E, de fato, se o mundo lá fora tem suas leis, regras de trânsito e o famigerado Código de Trânsito Brasileiro (CTB), aqui em Ibatiba a gente parece operar em uma dimensão paralela (uma espécie de multiverso caótico onde a prioridade é de quem tiver mais coragem e menos freio).
Nas últimas semanas, o cenário urbano de nossa bucólica cidade, encravada quase na divisa com Minas Gerais, transformou-se em uma versão capixaba de Mad Max. O motivo? Uma verdadeira epidemia de acidentes, batidas e cenas dantescas que fariam qualquer fiscal de trânsito ter um piripaque fulminante.
O grande mistério da física moderna ibatibense é a existência mítica do carro ou moto de roça. Pela lógica de alguns concidadãos, o veículo emplacado para uso rural vem com uma cláusula oculta na Constituição que o isenta de impostos, licenciamento, lanternas traseiras, retrovisores e, claro, de qualquer bom senso.
O resultado? Veículos capengas, motos sem carenagem e com o escapamento furado (fazendo barulho de metralhadora à 1h da manhã) desfilam soberanos pelas ruas e até por vias federais. E não para por aí. O cardápio de infrações é um verdadeiro festival de criatividade:
Carros que param no meio da pista para trocar um dedo de prosa com o amigo que vem na direção contrária, bloqueando o tráfego inteiro.
Estacionamentos criativos: veículos colados na esquina, ocupando a rampa de cadeirantes ou em cima da calçada, afinal, pedestre que lute.
A garagem alugada e a rua de depósito: Tem muito esperto na cidade que resolve alugar a própria garagem como ponto comercial (ou guardar mercadoria) e deixa o carro dormindo dia e noite na rua, como se a via pública fosse extensão da sala de estar. O pior é que param bem na porta dos outros, trancando quem precisa sair, bloqueando o acesso ao portão e estacionando a centímetros dos veículos alheios sem deixar o mínimo espaço de manobra.
A frota fantasma: gente sem carteira, com a CNH vencida há anos ou jovens que ainda nem têm idade para dirigir, mas já pilotam como se estivessem em Interlagos.
O delivery kamikaze: motoqueiros carregando botijões de gás pendurados de cada lado (contrariando todas as normas de segurança) ou mochilas de entrega gigantescas que mais parecem armários ambulantes, ultrapassando pela contramão para entregar o lanche buzinando pela madrugada enquanto o resto da cidade tenta dormir o pouco que lhe resta.
A nova geração elétrica: crianças entre 8 e 12 anos fazendo manobras radicais (quase um surf urbano) em cima de bicicletas elétricas desgovernadas pelas ruas centrais.
A grande pergunta que ecoa na mente do cidadão que paga seus impostos rigorosamente em dia, anda com o pisca-alerta funcionando e respeita a faixa de pedestre é: onde estão os órgãos responsáveis?
O policiamento passa, vê o carro estacionado em local proibido, vê a moto barulhenta sem placa, e segue viagem como se estivesse contemplando a paisagem. A sensação que fica é a de que a impunidade virou regra.
O pior de tudo é a inversão de valores. Quem tenta andar na linha ainda sai como chato. O infrator bate no seu carro parado, estraga seu retrovisor e, em vez de pedir desculpas, ainda acha ruim e sai cobrando “direitos” de quem nunca cumpriu um dever sequer.
Para coroar essa tragédia cômica (que de cômica só tem o texto, porque na prática é trágica), basta dar uma voltinha pelos corredores dos hospitais da região. Quem você acha que ocupa a maioria dos leitos? Exatamente: os motoqueiros irresponsáveis que decidiram que a pressa valia mais que a vida.
O resultado dessa valentia toda é o custeio de leitos hospitalares pelo SUS e, para piorar, campanhas de Pix nas redes sociais para “ajudar o guerreiro que sofreu um acidente”, sendo que às vezes, o acidente foi fruto de uma manobra criminosa e imprudente na base do “Deus nos acuda”.Nota do autor: Vale ressaltar que este espaço não generaliza o trabalhador honesto, o entregador digno que usa sua moto para o sustento da família com respeito e segurança, nem o produtor rural que zela pelo seu veículo. O alvo desta crônica são os irresponsáveis contumazes, a fatia barulhenta e perigosa da sociedade que transformou o trânsito de Ibatiba em terra de ninguém.













