Rio de Janeiro (RJ) – O cenário eleitoral fluminense coloca em evidência um contingente decisivo: dos 12,8 milhões de eleitores aptos a votar em outubro, 2,1 milhões residem em favelas, um universo de 1.724 territórios identificados pelo Censo 2022 do IBGE. Na capital, onde 1,3 milhão de habitantes vivem nessas áreas, a precariedade histórica na oferta de serviços essenciais, como saneamento, coleta de lixo e urbanização, molda a pauta de reivindicações que deve balizar a escolha dos próximos governantes.
Para o eleitorado periférico, a educação surge como prioridade transversal. A demanda não se limita à abertura de escolas, mas alcança a necessidade de creches capacitadas, centros culturais e, sobretudo, a interiorização do ensino superior. Em bairros densos como Campo Grande, a oferta pública de faculdades é limitada, forçando estudantes a deslocamentos exaustivos. Essa realidade é sentida intensamente por jovens como a ativista Letícia Vitória Guimarães, do Complexo do Alemão, que critica a postura de candidatos que ignoram as particularidades territoriais em troca de discursos genéricos.
A questão da mobilidade urbana atua como barreira ao desenvolvimento profissional. A carência de linhas de transporte integradas entre a zona norte e a zona sul, por exemplo, dificulta o acesso ao lazer e, mais gravemente, ao mercado de trabalho. A falha no custeio de deslocamentos para jovens aprendizes, cujos auxílios financeiros não acompanham a inflação, reflete a desconexão entre as políticas de emprego e a realidade dos deslocamentos metropolitanos. É um desafio que afeta o tempo de qualificação da juventude e a estabilidade das famílias, muitas vezes presas à extenuante escala de trabalho 6×1.
O debate sobre a segurança pública também ganha contornos específicos nos territórios. Longe de apoiar promessas de confronto, como discursos voltados ao extermínio, os moradores clamam por inteligência policial e o fim das operações rotineiras que interrompem o funcionamento de escolas e serviços básicos. A insegurança, na perspectiva desses cidadãos, não é combatida com o aumento do encarceramento ou a redução da idade penal, mas com a ocupação do território por políticas sociais robustas, esportes e assistência às crianças com deficiência.
A professora Eblin Farage, da UFRJ, ressalta que as favelas não compõem um bloco homogêneo e que a política de segurança, historicamente baseada no uso da força, carece de legitimidade entre os moradores, uma vez que não oferece proteção real. Para a especialista, a ausência recorrente do Poder Público em diversas esferas abre margem para práticas clientelistas, onde organizações sociais mantidas por políticos tentam ocupar o vácuo de assistência, muitas vezes reforçando currais eleitorais em detrimento da mobilização autêntica por direitos humanos.
A questão do racismo estrutural permeia todas essas demandas. Com uma população majoritariamente negra, os moradores denunciam como a negligência do Estado se traduz em desdobramentos como a violência obstétrica e o chamado racismo ambiental, onde as áreas mais vulneráveis a desastres climáticos coincidem com as mais pobres. Para lideranças locais, o voto nestas eleições passa, obrigatoriamente, por identificar candidaturas comprometidas com a escuta ativa e com a articulação entre o saber acadêmico e a vivência orgânica das comunidades.
A percepção comum entre os entrevistados é a de que as eleições representam uma janela curta de pactuação. O morador da favela hoje produz conhecimento e articula redes de resistência, cobrando que o Executivo e o Legislativo encarem o território não como um alvo de incursões policiais, mas como um espaço de direito à cidade. Enquanto o crime organizado exerce controle sobre serviços básicos — de internet a transporte —, o eleitorado periférico sinaliza que a resposta estatal passa pela retomada da qualidade de vida, garantindo que o direito de ir e vir, de estudar e de trabalhar com dignidade, deixe de ser um privilégio de outras áreas da cidade.










